sexta-feira, 20 de março de 2009

INVEJA DOS ANJOS


(cena do espetáculo Inveja dos anjos - foto divulgação)

Melhor do que uma boa história é quando ela é bem contada. Melhor ainda quando isso acontece no teatro e através de cenas desenhadas no espaço. Paulo de Moraes é um dos encenadores que ainda sabem fazer do texto dramático um bom motivo para que o teatro exista.
Se você leitor me perguntar o que o teatro dramático ainda quer nesses tempos de crise da palavra e de questionamento da personagem, posso lhe indicar um espetáculo encenado por Paulo de Moraes. Ele pode nos contar que esse teatro ainda pode querer muito. Ele ainda pode, através das articulações dos signos do espetáculo, emocionar e provocar o questionamento da vida através da arte da interpretação.
Além da direção, Paulo assina com Maurício Arruda a dramaturgia e o cenário em parceria com Carla Berri. Ele também acerta ao somar, na estética de Inveja dos anjos, a composição perfeita entre cores e formas do figurino criado pela Rita Murtinho. A plasticidade do espetáculo pulsa sob a luz de Maneco Quinderé que faz valorizar o movimento dos atores que estão totalmente inseridos na cena. O elenco se responsabiliza pelo restante, ou seja, pelo jogo, pelo tudo que caracteriza o teatro: a cena.
A Armazém Companhia de Teatro ocupa um lugar confortável no teatro contemporâneo: não reinventa a roda, mas torna-se o combustível incessante que a faz girar, sem falsear, sobre os atritos desse solo conflituoso.
Sobre a boa história nada vou falar, você ainda tem duas oportunidades de encontrá-la no Festival de Curitiba. Acredito que não vai se arrepender.

FICHA TÉCNICA
Direção: Paulo de Moraes – Dramaturgia: Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes – Elenco: Marcelo Guerra, Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Simone Mazzer, Simone Vianna, Thales Coutinho e Verônica Rocha – Iluminação: Maneco Quinderé – Figurinos: Rita Murtinho – Cenografia: Paulo de Moraes e Carla Berri – Trilha sonora (composição e pesquisa): Ricco Viana – Projeto gráfico: Alexandre de Castro – Fotografias: Guga Melgar – Produção Executiva: Flávia Menezes.



quinta-feira, 19 de março de 2009

CALÍGULA PECA PRINCIPALMENTE PELO EXAGERO

(cena de Calígula, dirigido por Gabriel Villela - foto divulgação)

Antes mesmo da Nena Inoue apostar em Calígula aqui no Blog, eu já tinha comprado meu ingresso pelos mesmos motivos que os dela.
Sempre fui fã do Gabriel Villela e do cenógrafo J.C. Serroni. Também já imaginava que o ator Thiago Lacerda estaria bem no protagonista. De fato, no teatro ele esteve muito melhor do que qualquer personagem que interpretou na TV. Apesar de não ter gostado, não dá para dizer que o espetáculo não é bom, todo o elenco é composto por ótimos atores, a direção e toda a produção são mais do que corretas.
O cenário grandioso só poderia ser exibido mesmo no Guairão. Toda a eloquencia do personagem título e toda a grandiosidade do texto de Albert Camus só poderiam também serem apresentados num grande teatro que comportasse tamanha imensidão. Porém, a montagem contemporânea de Villela para o texto clássico de Camus peca principalmente pelo exagero de todos os componentes da encenação.
Há tentativas de se fazer com que o jogo cênico dialogue com o cenário, porém a principal característica deste último é apenas a decoração. A atualização do figurino muitas vezes não se encaixava na densidade das palavras nas quase duas horas de apresentação. Calígula é excessivamente verborrágico. Como diria um querido amigo, "que preguiça!". Algumas pessoas não suportaram e deixaram o teatro antes do final do espetáculo. A encenação também propõe algumas metáforas com os objetos de cena e as mudanças de atos, nada de revelador e genial, apenas articulações mais do que vistas em pleno século XXI.
Não sei se a Nena já viu o espetáculo e o que ela achou, ainda não nos encontramos, a análise que estou postando aqui é fruto do meu próprio olhar e da minha singular especulação. Quem sabe ela leia esta postagem e também resolva comentar. Tenho certeza que algumas pessoas saíram satisfeitas de lá.
Fica então a promessa para um próximo espetáculo do talentoso encenador Gabriel Villela que, como muitos outros espetáculos anteriores, sempre me encantou muitíssimo.
Nada e nem ninguém é tão perfeito que consiga sempre agradar.
Algumas vezes até os grandes mestres deixam a desejar.
FICHA TÉCNICA:
Autor: Albert Camus - Tradução: Dib Carneiro Neto - Direção: Gabriel Villela - Elenco: Thiago Lacerda, Pascoal da Conceição, Magali Biff, Rodrigo Fregman, Pedro henrique Moutinho, Jorge Emil e Ando Camargo - Cenário: JC Serroni - Figurino: Gabriel Villela - Sonoplastia: Cacá Toledo e Daniel Maia

quarta-feira, 18 de março de 2009

APOTEOSE A CÉU ABERTO


(espetáculo O amargo santo da purificação - foto divulgação)

O barulhento trânsito do meio dia, nos arredores da Praça Santos Andrade, no centro de Curitiba, não foi suficiente para atrapalhar a apresentação do espetáculo O amargo santo da purificação encenado pela Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz de Porto Alegre. Na platéia, várias pessoas de teatro e outros contemplados. Um espetáculo no sentido amplo e grandioso do termo. No calendário, 18 de Março, primeiro dia de apresentações do Festival de Curitiba, porém a vinda a Curitiba nada tem a ver com a programação do Festival, eles vieram pela Caixa Cultural e a produção local é da Nena Inoue.
A trupe, ou tribo se preferirem, veio para, além da apresentação, realizar uma oficina e um bate papo para os interessados. Não pude me inscrever, estava comprometido com a agenda, tive que me contentar com o espetáculo. O contentamento foi por completo. Gosto de ver o teatro sendo levado às ruas, a céu aberto, com toda a sua possibilidade de encantamento e suspensão da realidade pela arte. O amargo Santo da Purificação é como jogo de futebol realizado em grande estádio, faz nosso corpo vibrar mais forte.
Entre danças, canções e cenas aquilo que vi parecia um ritual em determinados momentos. Em outros, parecia carnaval. Glauber Rocha. Guerra. Parecia confusão. De um lado, a simplicidade do teatro popular feito pelos artistas de rua. De outro, toda a sofisticação de uma grande produção que marca os 30 anos de existência e pesquisa daqueles atuadores.
O espetáculo conta a trajetória marcante do revolucionário brasileiro Carlos Marighella através de alegorias, adereços e figurinos bem executados e de forte impacto visual. Uma grande e impressionante parafernália, difícil de se transportar, dialogava com a performance de um elenco formado por 25 artistas bem afinados e treinados. A principal função do espetáculo é social, uma obra a serviço da arte e da política e inteiramente disponível ao publico, na rua, de graça e ao meio dia.
Para mim, todos os amigos da classe artística e demais publico presente, a semana começou muito bem.
Quem não foi perdeu.
Espero que tenha uma próxima.
Valeu!

(foto divulgação)

FICHA TÉCNICA
Encenação coletiva da Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz
Dramaturgia criada coletivamente a partir dos Poemas de Carlos Matighella
Roteiros, sonoplastia, figurinos, máscaras, adereços e elementos cenográficos – criação coletiva.
Músicas: Johann Alex de Souza
Atuadores:
Paulo Flores, Tânia Farias, Pedro Kinast de Camillis, Clélio Cardoso, Luana Fernandes, Marta Haas, Edgar Alves, Roberto Corbo, Sandra Steil, Paula Carvalho, Judit Herera, Eugênio Barboza, Roberta Fernandes, Lucio Hallal, Paula Lages, Déia Alencar, Danielle Rosa, Alex Pantera, Karina Sieben, Jorge Gil, Luciana Tondo, Carlo Bregolini, Renan Leandro, Alessandro Müller e Jeferson Cabral.
Locução AI-5 e Descrição Clima Cena da Morte: Nilson Asp
Voz das Lições de Tortura: Giovana Carvalho
Criação da Cabeça de Getúlio Vargas: Alessandro Muller
Criação e Execução dos Triciclos: Carlos Ergo (Ergocentro)
Criação e Execução do Estandarte “Depor Podre Poder” e colares Iansã: Margarida Rache
Confecção de Figurinos: Heloísa Cônsul
Execução de Crochê das Cabeças Marighella: Maria das Dores Pedroso
Preparação dos Atores:
Capoeira: Ed Lannes (Grupo Zimba)
Berimbau: Nelsinho (Grupo Zimba)
Saxofone: Zé do Trumpete
Dança Afro: Taila dos Santos Souza (Odomodê)

quarta-feira, 11 de março de 2009

APOSTAS: Diretoras de Curitiba também indicam seus espetáculos escolhidos.

As próximas apostas são de três mulheres que sabem muito bem o que querem. Competentes e talentosas, as diretoras SuelI Araujo (Cia Senhas de Teatro), Olga Nenevê (Obragem Teatro e Cia) e Nena Inoue (ACT - Atelier de Criação Teatral) também aceitaram o convite para participar das indicações do Blog Figurino e Cena para o Festival de Curitiba. Uma honra para mim e também para os leitores. Anotem aí:




SUELI ARAUJO
Minha aposta são os espetáculos do Projeto Auto Peças que a Cia dos Atores traz este ano para o Festival. É um grupo muito importante no cenário teatral contemporâneo e suas produções são sempre instigantes para o público. Outro fator que merecer ser considerador é que atores são muito legais e a irreverência é uma marca do grupo neste 20 anos de trejetória. Eles vão estar no Paiol, que é um espaço cuja arquitetura é um espetáculo a parte , com 4 trabalhos diferentes e um documentário. Acho que sempre vale a pena dar uma olhada no que a Cia dos Atores está produzindo.


OLGA NENEVÊ

Tô acreditando que a peça do grupo Armazém, " Inveja dos Anjos", é uma grande opção para a Mostra Oficial do Festival. Trabalho de grupo, com dramaturgia original e elenco afinado. A particularidade da interpretação de Patrícia Selonk sempre vale a pena.Da Mostra Fringe, para quem ainda não viu, vale conferir "Delicadas Embalagens", da CiaSenhas de Teatro. É isso.


NENA INOUE
Aposto na Companhia dos Atores. Pq? Porque é a Companhia dos Atores e isso em si já é apostar nas evidências.
Trata-se de um dos mais importantes grupos de teatro do País que tem em sua trajetória de trabalho, seu melhor avalista. O último espetáculo deles que vi (A Gaivota) era uma obra prima. Linda, contundente, provocativa, intensa, corajosa...
Acredito que a proposta de 4 montagen que vem aí, com distintos diretores, autores e caminhos, terá em qq uma das peças apresentadas, todos os adjetivos que elenquei .
Ps: e se tudo isso não bastar, considerar que ver uma peça no Paiol é bom pra equilibrar com o Guairão e o Positivo.

Calígula
Calígula tem direção do Gabriel Vilela, só isso já é um bom motivo para destacar esta montagem nesse mar de espetáculos. Além de que ver Magali Biff e Jorge Emil em cena é sempre um prazer. E ainda Pascoal da Conceição e mesmo o Thiago Lacerda que, dizem as boas línguas, mandou bem de Calígula. E o texto do Camus, claro, autor de “A Peste” e “O Estrangeiro”.

segunda-feira, 9 de março de 2009

AS APOSTAS DOS DIRETORES

As apostas da vez são dos diretores Márcio Mattana e Paulo Biscaia, amigos queridos, que apesar do tempo corrido e das inúmeras ocupações com suas carreiras não deixaram de enviar suas indicações para os leitores de Figurino e Cena.
Fiquem antenados, ainda nesta semana postarei novas indicações, vamos para as apostas:
MÁRCIO MATTANA
A programação da Mostra Oficial do FTC deste ano não me anima muito, na verdade. Embora tenha grande admiração por grupos como a Cia. dos Atores e encenadores como Cibele Forjaz, as propostas deste ano não me tocam de modo especial. O que me causa mais interesse é “Rock’N’Roll”, de Tom Stoppard. E é um interesse pelo texto, muito mais que pela encenação. De Stoppard, conheço o “Hamlet de 15 Minutos” e “Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos”, que li em 1992, em traduções datilografadas e não editadas em livro. Quem conhece este autor apenas pelos roteiros de cinema ‘não sabe da missa a metade’. É no teatro que ele alcança sua maior estatura. Assim, em 2009, vou ao FTC para ouvir o novo texto de Stoppard. É uma opção conservadora – ir ao teatro para ouvir o texto – mas é o que o coração manda fazer.
Quanto a propostas de encenação, prefiro ouvir os amigos e garimpar as novidades do FRINGE.


PAULO BISCAIA

Sempre que me perguntam por indicações para espetáculos no Festival de Curitiba, eu me sinto constrangido, pois até posso apontar trabalhos de grupos sérios e talentosos. O problema é que, salvo raríssimas exceções, eu não vi ainda o espetáculo, então não posso falar muito de nada. Para piorar a situação nestes casos de “dica”, é que existe ainda o gosto pessoal. O que eu gosto (e como todo mundo, eu tenho um gosto específico) pode não ser o que a pessoa que pede a dica gosta.
Tendo escrito este prefácio de escusas prévias, escrevo abaixo os nomes dos ingressos que comprei e o porquê.
“Sin Sangre”. O grupo do Chile parece ter um trabalho bacana de integração de mídias. Os atores contracenam com um filme o tempo todo. Ou seja, é um super trabalho de pesquisa pra mim.
“Rock’n’roll”. Pelo texto de Tom Stoppard.
“Memória afetiva…” . O trabalho do Ivan Sugahara está indicado ao Prêmio Shell. Conheci os Dezequilibrados na ocasião de sua formação. Eles fizeram um espetáculo granguignolesque na época, mas sei que mudaram bastante deste então. Esta montagem também traz integração de mídias e tem uma proposta ousada.
“A Inveja dos Anjos”. O trabalho da Cia Armazem dispensa apresentações e justificativas. Paulo de Moraes vem apresentando uma qualidade crescente a cada nova produção. Sou fã também do trabalho da Patrícia Selonk. Nunca vou esquecer quando eu a vi em “A Ratoeira É o Gato”
“Autopeças - Talvez”. O mesmo que escrevo acima, vale para a Cia dos Atores. A dedicação artística deles é exemplar. Tente ver também “Bate Man”, que está dentro do mesmo ciclo e traz a direção de Gerald Thomas.
“Play Chance”. No Fringe. Gosto muito do trabalho da minha talentosíssima ex-aluna Luci Ortega e não pude ver esta peça no ano passado quando era sua prova pública. De qualquer forma, é altamente recomendável pelo que conheço de suas montagens anteriores.
Pretendo ver mais algumas coisas, mas tem que ver como conseguirei equilibrar cronograma/verba.
A melhor dica que eu posso dar em todo o festival é : informe-se. O boca-a-boca que ocorre durante o evento é a melhor garantia que existe. Só tomara que você consiga ingresso.
Pra terminar, gostaria de convidar para dar um pulo no memorial e conhecer o stand do Movimento do Teatro de Grupo. Será lançado um jornal de atividades dos grupos envolvidos, haverá camisetas à venda, uma prévia das montagens que estão pode vir e um DVD com imagens de produções passadas dos grupos. Bom festival a todos.

domingo, 1 de março de 2009

TRÊS APOSTAS PARA O FESTIVAL DE CURITIBA

Conforme prometido, postarei nessa primeira quinzena de Março, mês do Festival, algumas indicações feitas por profissionais do teatro em Curitiba. São apostas que valem como indicações para os leitores, que diante de tantos espetáculos colocados em cartaz na maior mostra nacional, confundem-se na hora de fazer suas escolhas. Nesta primeira postagem, convidei três dos melhores atores e profissionais que estão atuando na cena curitibana. Os eleitos foram os atores Leandro Daniel da Companhia Vigor Mortis, Fernando de Proença da Obragem Teatro e Cia e Luíz Bertazzo da Cia Senhas de Teatro. Três excelentes atores que trabalham com pesquisas sérias, diferentes entre sí e ambos com notável reconhecimento de público e crítica. Vamos então para as apostas:


LEANDRO DANIEL COLOMBO

“ROCK’N’ROLL, mais recente peça de Tom Stoppard, inédita no Brasil, trazendo no elenco Otavio Augusto, Thiago Fragoso, Gisele Froes e Bianca Comparato.
Sem dúvida umas das montagens que mais despertam a curiosidade dos amantes de teatro é a estréia de Rock’N’Roll nos dias 28 e 29 de Março fechando o Festival de Teatro de Curitiba. Ainda inédito no Brasil, o texto mais recente de Tom Stoppard recebeu indicações aos Prêmios Olivier (2007) e Tony (2008). Stoppard talvez seja hoje o mais festejado nome vivo da dramaturgia contemporânea.
Dê acordo com o release do espetáculo “A peça não é um musical, mas se vale do rock’n’roll como ferramenta indispensável para contar uma história sobre a desestruturação do comunismo no leste europeu. " Concebida pelo próprio Stoppard, a trilha desfila clássicos de Rolling Stones, Velvet Underground, Beatles, John Lennon, Bob Dylan, Syd Barrett, Doors, Pink Floyd, Beach Boys, Guns’n’Roses, Grateful Dead, U2, além da banda The Plastic People of the Universe, grupo de rock que surgiu em Praga em 1968, e acabou se tornando um símbolo da resistência ao regime comunista.”
Os ingredientes da receita são especiarias. A curiosidade agora fica por conta criatividade dos Chefs/Diretores Felipe Vidal e Tato Consorti. Vamos conferir!


FERNANDO DE PROENÇA

Aposto minhas fichas em RAINHAS, sem dúvida.
Pela união de Georgette Fadel, Isabel Teixeira e Cibele Forjaz, sobretudo. Porque me interesso pelos procedimentos usados para a construção do trabalho,dentre eles, idéias de performance e instalação. Porque são atrizes que tem um trabalho autoral sólido e porque a criação da dramaturgia é assinada pelas três artistas. Tô muito curioso! O trabalho tem como pano de fundo a disputa de poder na Inglaterra do século 16. As atrizes interpretam as rainhas Eliza­beth 1ª e Mary Stuart, em um jogo cênico dividido em quatro "rounds" -com um desfecho escolhido pelo público.



LUIZ BERTAZZO
Escolher um espetáculo do festival de Curitiba para indicar, esse foi o convite feito pelo meu amigo Paulo Vinicius. Missão difícil, não só pelo fato de estar diante de uma centena de peças, mas também por saber que o FC (que não é mais de teatro) e principalmente a mostra paralela é um caixinha de surpresa (o que ficou mais critico, pelo fato do festival ter erroneamente colocado os nomes de batismo na ficha técnica, dentre outros erros primários, o que é uma falta de respeito para um festival ‘pago’ que se diz o maior do Brasil)... E ainda aquele assunto que está sempre na boca de alguns artistas curitibanos: A falta de curadoria. Bem este é nosso festival. Passado minha indignação anual: Escolhi. Escolhi pelo grupo, Armazém Companhia de Teatro. O espetáculo: INVEJA DOS ANJOS. Este grupo, que começou paranaense, bate ponto na mostra contemporânea, e sempre me surpreende pelas atuações, por vezes catárticas, e pela coerência, o que se pode creditar pelo trabalho continuado que só um grupo pode oferecer. Fora isso, cenário, figurino, texto, não costumam patinar nas produções do armazém. Não acho que o espetáculo possa estar livre de qualquer suspeita e ainda me assusto com a produção anual de espetáculo do grupo (gostaria muito de ver um espetáculo de repertório), mas também sei que é assim que se enquadra no esquema de um festival que não acredita na melhora, mas sim na quantidade. Sobre o espetáculo é só o que posso dizer, pois ainda é uma aposta. Mas indico a todos que fiquem atentos aos espetáculos dos grupos de Curitiba que fazem parte do Movimento de Grupo, e mais ainda, conversem com os artistas que estarão na cidade, pois a melhor divulgação dos bons espetáculos é feito boca a boca. Abraço grande e bom festival pra todos.





Feito as primeiras apostas, fiquem antenados para as próximas indicações. Muito obrigado aos atores convidados, amigos queridos, que atenciosamente aceitaram em colaborar com a iniciativa do blog Figurino e Cena. Grande abraço nos três atores e outro de igual tamanho à vocês!
Boas escolhas!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O OLHAR MULTIFOCAL DE ADRIANO ESTURILHO

(foto de Andressa Cor)

A VISITA MAIS QUE BEM VINDA.

Carnaval. Da janela do meu apartamento vejo uma quantidade de turistas maior que a habitual. Adiei minha viagem para concluir um trabalho que precisava ser entregue.
Na tarde da segunda-feira, recebi um amigo mais que querido para um café acompanhado de um delicioso bate-papo que resultaria neste texto que agora você lê.
Convidei-o, primeiro porque é sempre um prazer, afetivo e intelectual, estar ao lado de Adriano Esturilho. Conversamos horas. Sua visita fez valer a pena o cancelamento da minha tão esperada viagem. Adorei! Em segundo lugar, é sempre bom escrever sobre quem tem o que dizer. Entre tantos projetos já realizados e outros a se realizarem, tenho que optar por falar apenas de alguns, porque falar sobre os projetos do Esturilho é também falar sobre todas as linguagens artísticas que podem e devem se relacionar na contemporaneidade ou na “pós-modernidade”, como definiu o entrevistado ao avisar que isentava este termo de todo conteúdo preconceituoso e histórico que ele carrega.
Viva então a pós-modernidade!
Viva o trânsito necessário entre as linguagens artísticas e suas fronteiras!
Viva!


(amorfo - espetáculo de 2006)

(samuel - espetáculo de 2007)



UM OLHAR PLURAL SOBRE A CRIAÇÃO ARTÍSTICA

Adriano Esturilho lança seu olhar sobre um lugar onde as linguagens se tocam. É uma pessoa de teatro que rompe as fronteiras com as demais artes, que caminha livremente por elas e relaciona-as em duplas ou em muitas. Para realizar seus projetos, além de pesquisar sobre cada área, também estabelece parcerias com artistas que a representam e que também estão interessados nesse caminho de mão dupla. Seu mais novo projeto, [cancha 2],lançado com o selo da Editora Medusa, em parceria com o editor Ricardo Corona, promove o diálogo entre a literatura e o cinema. Antes disso, já juntou teatro com literatura, teatro com performance e já se prepara a sua mais nova empreitada, OCUPADO, um projeto que além de apresentar dois contos longos vai unir dois gêneros literários: quadrinhos e contos. O livro OCUPADO também será editado pela Medusa.
O momento atual favorece o lado escritor do artista, que já estudou letras e teatro, mas não encerra os outros estados criativos. Quando pensamos em Adriano Esturilho, pensamos também no produtor cultural, no diretor teatral, no agitador cultural e no cineasta. Aliás, quando falamos no cineasta Esturilho, falamos também nas várias funções que ele exerce: diretor, preparador de elenco e produtor. Ele integra a primeira turma de alunos do curso de cinema da Faculdade de Artes do Paraná – FAP – que colará grau no próximo ano e que há tempos vem prometendo marcar a história do cinema paranaense. Já falei sobre eles certa vez aqui no Blog.




PROCESSOS

Nos bastidores da faculdade de cinema, outras parcerias se firmaram e através delas foi formada a PROCESSO FILMES, uma ramificação da PROCESSO MUTIARTES. Como sócios dessa bem realizada parceria estão Bruno de Oliveira, Carolina Maia e Fábio Allon, outros profissionais extremamente competentes e talentosos que já tive o prazer de trabalhar algumas vezes.
A PROCESSO MULTIARTES, surgida em 1999, além do Esturilho, tem como integrantes Hermison Nogueira, Mário Carta, Judite Fioreze, Waldo Neón, Mariana Gomez e Andrew Knoll. De lá para cá, já produziu os espetáculos arrasTom, criÂnsia, mono, samuel e amorfo.
A PROCESSO FILMES, mesmo formada há um tempo relativamente curto, já tem projetos que se firmaram no cenário artístico devido ao seu excelente conteúdo. COLORADO ESPORTE CLUBE, por exemplo, curta metragem de Fábio Allon sobre o conto homônimo de Esturilho e que também integra o projeto [cancha 2], já foi selecionado em mais de 14 Festivais de cinema. O curta é lindo, tecnicamente super bem resolvido e, além do roteiro criativo, nos apresenta imagens resultantes do olhar poético e treinado do diretor-editor Fábio Allon.
Ainda neste ano de 2009, entre outros lançamentos, teremos, em parceria com a ALUMIAR FILMES, CINEMATOSO, um documentário de Bruno de Oliveira, longa metragem sobre o cineasta amador Cyro Matoso de Paranaguá/PR. Fiquei bastante curioso para ver esse material, que está em fase de edição, pois fala sobre esse artista amador, homem simples sem formação acadêmica nenhuma que, sem qualquer recursos técnicos e com pouquíssima informação, realiza filmes sobre lendas, causos e histórias da cidade. Além do documentário, a PROCESSO promoveu também a realização de mais um filme de Cyro Matoso, colocando a disposição dele todo o equipamento técnico da produtora. Nessa filmagem, os integrantes da equipe da PROCESSO também foram escalados, pelo diretor, como atores para contracenar com os moradores da cidade, pessoas que sempre participaram dos filmes de Matoso. Sorte do Cyro que foi encontrado pela PROCESSO, sorte da PROCESSO existir esse cineasta amador, no melhor uso do termo, e sorte nossa de poder conhecer essa história.
Aguardemos pelo lançamento.



(capa do Livro-dvd [cancha 2])


[CANCHA 2]

Na última quarta-feira, 18 de fevereiro, estive presente à noite de lançamento do livro-dvd [cancha 2] de Adriano Esturilho no Teatro da Caixa, em Curitiba.O lançamento teve o apoio cultural da Caixa Cultural e contou com a exibição dos 10 curtas que compõe o projeto, seguido de um bate-papo com Paulo Biscaia Filho, Ricardo Corona, Luís Felipe Leprevost, Bruno de Oliveira, Henrique Faria e Adriano Esturilho. Após a conversa, no hall do teatro, Adriano autografou os livros durante um simpático e delicioso coquetel oferecido pelos realizadores.
O livro-dvd [cancha 2] - cantigas para perverter juvenis, é a segunda publicação da trilogia inaugurada com Poesinhas – cantigas para perverter guris. Em [cancha 2] temos 25 contos de Esturilho mais 10 curtas-metragem, onde alguns filmes foram concebidos a partir dos contos e outros serviram como inspiração ou readaptação para outros contos. É um processo de mão dupla, que coloca em diálogo as duas linguagens artísticas propostas: cinema e literatura. Nem por isso as obras dependem umas das outras para existir; curtas e contos existem independentemente como obra individual.
Entre os cineastas parceiros e co-criadores do projeto, além do próprio Adriano, estão Fábio Allon, Henrique Faria, Bruno de Oliveira, Sérgio Velloso, Rodrigo Belato, Guilherme S. Bucco, Bia Dantas e Eduardo Baggio.
A linguagem literária apresenta contos que, apesar de serem construídos primeiramente por momentos de criação passional seguida da revisão racional, aparentam ser escritos através do fluxo do pensamento, ou seja, não são seguidas as regras de acentuação e pontuação formais. A isso são somados vícios característicos da linguagem internáutica e uma diagramação que reflete mais uma das referências do autor: a poesia concreta. Ao folhear o livro podemos encontrar, por exemplo, uma página dupla com fundo cinza onde, entre colchetes, está escrito apenas “tenho medo da primeira pessoa”.
Os contos descrevem a cidade de Curitiba através de situações vividas ou contadas por personagens-narradoras. Como pano de fundo para o desenvolvimento dos contos temos a sexualidade, a perversão e outros tabus, não menos suaves e instigantes para estimular a nossa leitura e valer a também rica literatura como “cantigas para perverter juvenis”.
Pimenta nos olhos passivos do leitor.
Quente e ardida!



(cena de COLORADO ESPORTE CLUBE - curta de Fábio Allon)


Para maiores informações e adquirir o livro-dvd, entre em contato pelo e-mail grupoprocesso@gmail.com