segunda-feira, 16 de maio de 2011

AVENIDA INDEPENDÊNCIA 161 - Trilha Sonora Para Coisas Irreversíveis



Está em cartaz até 29 de Maio no Teatro Novelas Curitibanas o espetáculo AVENIDA INDEPENDÊNCIA 161 – TRILHA SONORA PARA COISAS IRREVERSÍVEIS com texto e direção de Paulo Biscaia Filho. O espetáculo é uma produção da MKF e tem no elenco Karla Fragoso, Ludmila Nascarella, Kassandra Speltri e Fabiano Amorim.
A dramaturgia é fragmentada, misturando tempos, repetindo momentos e revelando aos poucos as histórias e a ligação dos personagens. Em linhas gerais o espetáculo conta a história de duas irmãs, uma hipocondríaca viciada em jogo e uma eterna adolescente com espírito revolucionário, e de dois amantes, uma garota que fugiu de casa aos 14 anos com um guerrilheiro anarquista apaixonado pelos seus ideais. Estes quatro personagens tem em comum o endereço da Avenida Independência 161.
Nesta produção fui responsável pela cenografia, repetindo a parceria estabelecida com o diretor Paulo Biscaia nos espetáculos NERVO CRANIANO ZERO e MANSON SUPERSTAR da Cia Vigor Mortis, ambos em 2009.
O espetáculo fica em cartaz até o dia 29 de Maio, de quinta a Domingo sempre às 20h com entrada franca. A realização é da Fundação Cultural de Curitiba através do edital de ocupação do Teatro Novelas Curitibanas.


(foto de Janete Anderman)

FICHA TÉCNICA
Texto, Direção, Vídeos e Sonoplastia: Paulo Biscaia Filho
Assistente de direção: Fabiano Amorim
Elenco: Karla Fragoso, Ludmila Nascarella, Kassandra Speltri e Fabiano Amorim.
Cenário: Paulo Vinícius
Figurino e adereços: Karla Fragoso e Fran Ferreira
Iluminação: Wagner Correa
Produção: Márcio Tesserolli
Fotografia: Janete Anderman
Ilustração: André Azevedo
Designer gráfico: Maria Andrade

...OUOQQSERDES

(foto de Mariana Brandão)
...OUOQQUISERDES, espetáculo dirigido por Mauro Zanatta, coloca em cena a obra Noite de Reis de William Shakespeare através da linguagem das máscaras. A Companhia do Ator Cômico resolveu propor um desafio a ela mesma: deixar William Shakespeare "sem palavras". As emoções e sentimentos, contidas nos textos do dramaturgo inglês, foram transportadas para um espetáculo em que os atores não falam. A montagem utiliza máscaras inteiras para transpor a comédia romântica de Shakespeare, onde é contada a história de um triângulo amoroso e muitos enganos. Esses desencontros amorosos são conduzidos por uma trilha sonora executa ao vivo, onde os músicos guiam o espectador pela história.

A peça ...OUOQQUISERDES  voltou em cartaz no dia 4 de maio, no Teatro José Maria Santos após pouquíssimas sessões em outubro do ano passado no Teatro da Caixa. Acompanhei parte do processo de criação do espetáculo porque fiz o figurino e, após ter revisto o espetáculo neste último final de semana, constatei que o trabalho já está bastante diferente da temporada de estréia. As cenas evoluíram, ganharam a costura das narrações feitas pelo próprio Mauro Zanatta, enfim, como é de costume na Cia do ator Cômico, o trabalho está sempre em evolução. Quem ainda não viu não pode deixar de ver. Quem ja viu, vale muito a pena ver de novo. Não percam!

O espetáculo fica em cartaz até o dia 22 de Maio no Teatro José Maria Santos, de quarta a sábado, às 21h - domingos às 19h. Os ingressos custam R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (estudantes, idosos, portadores do cartão Teatro Guaíra, clientes CAIXA).

(foto de Mariana Brandão)
FICHA TÉCNICA:

Direção Geral e Preparação de Atores: Mauro Zanatta
Direção Musical: Paulo Demarchi
Músicos: Paulo Demarchi, Henrique Dronneau e Melissa Anze
Dramaturgia: Flavio Stein, Gabriel Rachwal e Mauro Zanatta
Atores / Criadores: Camila Jorge, Edran Mariano, Hique Veiga, Frank Sousa, Luana Godinho e Jussara Batista
Figurino: Paulo Vinicius
Cenário: Alfredo Gomes
Iluminação: Wagner Correa
Máscaras: Mauro Zanatta (criação), Polako (desenho), Daniel Feliz e Mauro Zanatta (confecção)
Adereços:  Alfredo Gomes e Paulo Vinicius
Costureira:  Sonia Franco
Design Gráfico:  Adriana Alegria
Fotografia:  Mariana Brandão
Assessoria de Imprensa:  Fineza Comunicação e Cultura
Direção de Produção:  Edran Mariano
Realização:  Ator Cömico Produções Artísticas

terça-feira, 12 de abril de 2011

DRAMATURGIA VISUAL

(Cena do espetáculo Hamlet, dirigido por mim para os alunos do quinto período do
curso de formação de atores da Academia de Artes Cênicas Cena Hum em 2010)

O hibridismo alcançado pela mistura de diferentes linguagens artísticas na construção da cena teatral tem contribuído muito para desenvolver no meu trabalho de criador teatral um discurso indireto que eu tenho chamado de dramaturgia visual. Por uma linguagem teatral híbrida entendo a poética que tenho buscado através da utilização de diferentes elementos para a construção de um espetáculo. Tais elementos são provenientes de outras expressões artísticas como as artes visuais, o vídeo, a dança e a música, mas que reunidos completam o discurso visual do evento teatral. Dessa forma, não atribuo à dramaturgia verbal o principal elemento para que o espetáculo se realize. Na história do teatro, essa prática já vem sendo pesquisada desde as teorias de Adolphe Appia (1862 – 1928) e Gordon Craig (1872 – 1966) e tem se desenvolvido cada vez mais, principalmente a partir do teatro Pós Brecht, período que o pesquisador Hans-Thies Lehmann chama de pós dramático na sua obra O Teatro Pós-Dramático.

A autonomia da linguagem cênica pretende que uma cena, célula do teatro, articule seus elementos, devidamente selecionados, para refletir sobre suas próprias capacidades expressivas e que são independentes do texto articulado e previamente estabelecido. A experimentação no teatro é impulsionada pelo nascimento do cinema, que representa a realidade com mais eficácia, “é a partir daí que a teatralidade começa a ser trabalhada, ainda que timidamente, como dimensão artística independente do texto dramático, em um processo de autonomia que se completa apenas no final do século XX” (FERNANDES, Pág. 15).

Em outras palavras, entendo que escrevo uma dramaturgia visual na medida em que articulo um vocabulário de diferentes signos teatrais, associados ou não ao texto, buscando a criação de imagens, signos visuais, que se comunicam com o público e ampliam o conteúdo do discurso, uma vez que o sentido da cena só é completado com o entendimento subjetivo da platéia, seja ele racional ou sensível. Penso através de imagens e quero me comunicar efetivamente através delas. Para isso, os principais signos que considero de extrema importância para estarem associados às palavras articuladas são a iluminação, a sonoplastia, a cenografia, o figurino e, sobretudo, a presença forte e expressiva do ator.
Segundo Lehmann, a dramaturgia visual em geral acompanha a sonora no teatro pós- dramático. Ela não precisa ser organizada exclusivamente de modo imagético, pois se comporta,  na verdade, como uma espécie de cenografia expandida que se desenvolve numa lógica própria de sequências e correspondências espaciais, sem subordinar-se ao texto, mas projetando no palco uma trama visual complexa como um poema cênico. Até a frieza formalista de certas imagens dessa dramaturgia pode funcionar, segundo Lehmann, como provocação, e é compensada pela corporeidade intensiva do ator, que se torna absoluta quando a substância física dos corpos e seu potencial gestual são o centro de gravidade da cena. (FERNANDES, pág. 26)
 
REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA:

GUINSBURG, J. e FERNANDES, Silvia. O pós-dramático. Perspectiva: São Paulo, 2009.



sexta-feira, 18 de março de 2011

Segredos de Liquidificador


No início do segundo semestre de 2010 recebi a missão de dirigir um espetáculo de teatro musicado com os alunos/atores formandos da Cena Hum, escola onde ministro a disciplina interpretação: Um elenco jovem, dois atores e quatro atrizes na faixa dos vinte anos. Pelo currículo da escola, no sexto e último semestre do curso de formação de atores os alunos devem passar por uma experiência onde possam cantar e dançar; este é um dos objetivos da grade curricular.
Busquei um projeto que traduzisse as expectativas daquela turma de alunos, algo em que eles realmente acreditassem e se apaixonassem de verdade. Parece que deu certo, terminaram o curso satisfeitos e felizes.
O espetáculo é uma homenagem ao cantor Cazuza e ao autor do texto Farid Lawi, grandes artistas, ambos falecidos na década de 90.
SEGREDOS DE LIQUIDIFICADOR volta em cartaz durante o Festival de Curitiba, edição 2011, com 10 apresentações e faz também uma apresentação especial com algumas cenas na Fenac do Shopping Barigui. É uma boa oportunidade para quem gosta de Cazuza. É uma ótima oportunidade para quem quiser conhecer um elenco de jovens atores, muito talentosos, alguns também cantores e que estão entrando no mercado de trabalho agora.

(foto de Luciana Ribas)

FARID LAWI
Diante desta missão fiquei pensando em mim quando tinha vinte anos e tentando lembrar quais eram as minhas expectativas artísticas. Nesta época eu cursava filosofia no campus da Unesp da cidade de Marília, interior do Estado de São Paulo. Com vinte anos minha principal influência no teatro foi a experiência que tive com Farid Lawi, autor, diretor de teatro e artista plástico da cidade de Bauru, minha cidade natal. Começamos a trabalhar juntos em 1991, quando eu ainda tinha 18 anos. Farid era um artista que atuava em várias áreas e, apesar do seu temperamento difícil, eu aprendia muito com a nossa convivência e experimentos artísticos. Uma das áreas em que ele melhor atuava era na escrita, escrevia dramaturgia e poesia. Seus textos falavam principalmente de amor, de paixões violentas e da existência. Eles marcaram profundamente o início da minha carreira profissional no teatro. Tenho cópia de várias peças dele, algumas que foram escritas exclusivamente para mim, motivo pelo qual me orgulho muito e faz aumentar a saudade deste amigo que partiu ainda muito jovem.
Farid Lawi viveu sua juventude na década de 80. Seus textos refletiam muito o pensamento daquela época, sobretudo no pensamento artístico. Ninguém melhor que ele para dar voz à história que se desenvolveria a partir das canções do Cazuza. Fui selecionando fragmentos de vários textos dele, costurando uma história na outra, aonde nós, diretor e atores, íamos descobrindo aos poucos, somando dados, construindo relações entre aquelas vozes e descobrindo quais eram os nossos personagens. Tudo falava de amor, texto, música, eu, eles, tudo.

(foto de Luciana Ribas)
CAZUZA
O cantor Cazuza marcou fortemente os anos 80 e 90. Foi um grande poeta e viveu intensamente o sexo, as paixões, as drogas e a vida. Ele cantou o amor, em prosa e em versos, através de metáforas geniais.
Nosso espetáculo nunca teve a intenção de ser uma obra biográfica, apenas tomamos a história e a atitude do poeta como inspiração para construir a nossa trama.
As letras das canções de Cazuza couberam perfeitamente como pano de fundo para a história do nosso personagem central. Elas dialogam com a encenação e emocionam a platéia quando são o foco principal da cena ou mesmo quando estão em segundo plano no espetáculo.
As escolhas foram minhas. Os arranjos e a direção musical foram de Junior Pereira, músico, cantor, sonoplasta e professor de canto dos alunos na escola. Entre vários fragmentos, algumas canções são executadas na íntegra, como por exemplo Codinome Beija Flor, um dos pontos altos do espetáculo.

(foto de Luciana Ribas) 

SEGREDOS
No âmago da geração sexo, drogas e rock and roll, um acidente interrompe a carreira promissora do jovem vocalista de uma banda dos anos 80.
A história se desenrola por flashes da memória na UTI de um hospital. Mostramos uma história fragmentada pelo deslocamento de tempo, pela consciência daquele que agora se encontra no momento em que a vida nos passará como um filme na nossa mente. Um balanço final. Um encontro consigo mesmo. Uma despedida dos outros. Esta peça fala sobre a ausência, mais precisamente daquilo que deveria ser dito e não foi.

(foto de Luciana Ribas) 

FICHA TÉCNICA -

Texto: Farid Lawi – Trilha sonora: Cazuza – Roteiro, direção e linguagem visual: Paulo Vinícius – Arranjos e direção musical: Junior Pereira Coreografias: Eraldo Kühl, Dayane Paixão e Clarissa Gindri - Edição de vídeo: Rodolpho Guttierrez – Fotografias: Thiago Herrero – Produção: Greice Yurie
Elenco: Angela Perini, Clarissa Gindri, Dayane Paixão, Greice Yurie, Rodolpho Guttierrez e Thiago Herrero 
 Musicos:Gleyson Meneguci, Junior Pereira e Rodolpho Guttierrez.

(foto de Luciana Ribas)


SERVIÇO:
Dia 24 de Março as 19h na Fenac do Shopping Barigui – Cenas editadas

Dias 30/03, 31/03, 01/04, 02/04, 03/04,06/04, 07/04, 08/04, 09/04 e 10/04 às 19h no Teatro Cena Hum – Rua Senador Xavier da Silva 166 – São Francisco – Curitiba.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

GRUPO DE ESTUDOS EM TEATRO CONTEMPORÂNEO

(Cena do espetáculo Passos do Grupo Obragem, primeira companhia convidada
 para um bate papo no grupo de estudos - Foto de Elenize Dezgeniski)

No próximo dia 17 deste mês de Fevereiro inicia um grupo de estudo sobre teatro contemporâneo na Academia de Artes Cênicas Cena Hum. A organização das atividades está sob minha responsabilidade e da Airen Wormhoudt, também professora da Academia. As inscrições são gratuitas e estão abertas na secretaria da Cena Hum para todos os artistas, estudantes de teatro e também para aqueles interessados em formação de platéia de teatro.
Como conteúdo deste primeiro módulo, que durará o primeiro semestre de 2011, elegemos o panorama do teatro contemporâneo dentro da história mundial do teatro, afunilando para o trabalho dos principais encenadores e companhias do final do século XX e início deste XXI no Brasil.
Os encontros acontecerão uma vez por semana, sempre as quintas feiras das 09:30h as 12:00h. As discussões sobre a bilbliografia escolhida acontecerão quinzenalmente e na semana intermediária receberemos sembre a visita de um convidado para um bate papo com os integrantes do grupo de estudo. Como foco destes bate papos estará o trabalho de pesquisa de linguagem das companhias de teatro curitibanas.
Na abertura, agendada para as 10h do dia 17 apresentaremos o cronograma das atividades, com metodologia e bibliografia, e debateremos a primeira questão que ventilará como estímulo para as primeiras leituras.
No segundo encontro, abrindo os bate papos, teremos como primeira companhia convidada o Grupo Obragem representado pelos artistas Olga Nenevê (diretora, atriz e dramaturga) e Eduardo Giacomini (ator, produtor, figurinista e cenógrafo).
Maiores informações poderão ser recebidas diretamente na Cena Hum: Rua Senador Xavier da Silva, 166 - São Francisco - Curitiba – Tel. (41) 3333-0975 ou (41) 3016-0975.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

RESENHA: O teatro e seu duplo

I – Apresentação

Antonin Artaud (1896 - 1948) lutou contra o formato e o conteúdo do teatro de seu tempo. Buscou instaurar uma nova linguagem para o teatro, reformulando o já existente e edificando uma nova proposta. O teórico Alain Virmaux apresenta na sua obra Artaud e o teatro como se estruturou o seu entendimento sobre as idéias de Artaud e de como a sua obra preconiza uma visão renovada do fazer teatral: “Atonin Artaud disse tudo em O teatro e seu duplo, da maneira mais clara possível” (VIRMAX, pag. 35).
O que pretendo com a seguinte resenha é extrair de cada capítulo do livro as idéias e propostas mais pertinentes ao processo de entendimento do teatro contemporâneo associado à linguagem proposta por Artaud. No decorrer do texto, faço também citações das reflexões que Virmaux fez do seu entendimento das propostas de Artaud.


(Foto divulgação)

II – Parte 1: O TEATRO E A CULTURA

Na primeira parte do livro, Artaud faz algumas considerações a respeito da relação dos seres humanos com a cultura, onde apresenta esta ultima como “um meio apurado de compreender e exercer a vida” (ARTAUD, pag. 18). Para ele, o teatro deve ser uma linguagem artística que rompa com todas as limitações e que represente a vida como uma eterna magia, constituindo uma arte de elementos vivos. Alain conclui que essa relação do teatro com a vida torna-se muito significativa quando Artaud fala do teatro como se falasse da própria vida e questiona se o teatro seria o duplo da vida para Artaud, pois “de fato, no final da trajetória, teatro e vida acabam em uma fusão completa” (VIRMAX, pag. 39).
Artaud busca a magia para o teatro, pois ele define o teatro como um verdadeiro passe de mágica, isto é, “é preciso acreditar num sentido de vida renovado para o teatro onde o homem impavidamente torna-se o senhor daquilo que não existe e o faz nascer” (ARTAUD, pag. 22).


III – Parte 2: O TEATRO E A PESTE

Artaud imagina o teatro como uma revelação, uma exteriorização da crueldade presente num indivíduo. Dessa maneira ele compara a revelação que se dá, através do teatro, com a peste no sentido de ver explodindo em cena todas as forças profundas e ocultas que estão em potência no interior do ator. “Como a peste, o teatro é, portanto, uma formidável convocação de forças que conduz o espírito, pelo exemplo, à origem de seus conflitos” (ARTAUD, pag. 42). O teatro, assim como a peste, leva o homem a se ver exatamente como ele é, sem máscara, exteriorizando todos os sentimentos por piores que sejam: “O teatro, como a peste, é feito à imagem dessa carnificina, dessa essencial separação. Desenrola conflitos, libera forças, aciona possibilidades, e se essas possibilidades e essas forças são regras, a culpa não é da peste ou do teatro, mas da vida” (ARTAUD, pag. 44).
Alain Virmaux, sobre a definição da peste em Artaud, diz que ela “não é a imagem do teatro, ela é o teatro (VIRMAUX, pag. 45). Dessa forma, o teatro teria em si mesmo os meios de florescimento de idéias da apresentação de um mundo superior, uma forma verdadeira de vida renovada.


IV – Parte 3: A ENCENAÇÃO E A METAFÍSICA

Nessa terceira parte, o que mais me chama a atenção e o interesse é a descrição que Artaud faz do que ele chama de “linguagem concreta” e de como essa teoria pode ser vista sob a ótica da metafísica. Para ele, a cena é um lugar concreto e físico que deve ser construída através de uma linguagem independente da palavra e que satisfaça os sentidos onde os pensamentos expressados escapam a linguagem articulada.
Artaud diz que essa linguagem concreta, antes de se direcionar ao espírito deve, primeiramente, se comunicar aos sentidos do espectador e, possivelmente, num segundo momento, ser entregue à análise racional e intelectual. Essa poesia idealizada por ele deve resultar numa combinação de todos os meios de expressão (música, dança, artes visuais, pantomima, mímica, gesticulação, entonações, arquitetura, iluminação e cenário). O formato dessa linguagem proposta pertence à linguagem dos signos, ou seja, “esta linguagem que evoca no espírito imagens de uma poesia natural (o espiritual) intensa dá bem a idéia do que poderia ser no teatro uma poesia no espaço, independente da linguagem articulada” (ARTAUD, pag. 54). Tal poesia seria a descoberta de uma linguagem ativa, que é também anárquica, onde foram abandonados os limites comuns entre os sentimentos e a palavra.
O caráter metafísico dessa poesia é o que resultaria todo o seu real valor de ser. Ao se encontrar com o tempo e o movimento é que a poesia se torna teatral sob um ponto de vista metafísico. Nesse sentido, o teatro resgataria o seu conteúdo religioso e místico que se perdeu e essa nova linguagem, proposta por Artaud, seria estruturada sob a forma de encantamento, ou seja, “fazer a metafísica da linguagem articulada é fazer com que a linguagem sirva para expressar tudo aquilo que rotineiramente ela não expressa: é usá-la de um novo modo, excepcional e incomum (ARTAUD, pag. 62).


(foto divulgação)

V – Parte 4: O TEATRO ALQUÍMICO

Para Artaud o teatro é metafísico da mesma maneira que seria alquímico, ou seja, ele quer se tornar sensível a multiplicidade da vida, fazer um teatro de ambivalência onde “a ilusão é verdadeira, a destruição construtiva e a desordem ordenada” (VIRMAX, pag. 46).
Artaud aproxima o teatro da alquimia por conta do caráter do movimento que o teatro tem entre as forças antagônicas. Segundo ele, a operação teatral deverá fazer “ouro” pela relação conflitante que é provocada, pois “tanto a alquimia quanto o teatro são artes por assim dizer virtuais e que carregam em si tanto a sua finalidade quanto sua realidade” (ARTAUD, pag. 65).

VI – Parte 5: SOBRE O TEATRO DE BALI

Artaud apropria-se do teatro de Bali para exemplificar e inspirar a sua teoria teatral. Num primeiro momento, as aparições espectrais das personagens do teatro de Bali, antes de evoluírem para a linguagem simbólica, são para Artaud, a essência do teatro puro que ele busca, onde a sua concepção e execução só valerão quando atingirem certo grau de objetivação da cena. A eliminação das palavras, a opção pelos temas abstratos, a complexidade dos artifícios cênicos resultariam na aplicação da metafísica extraída de uma nova utilização da voz e dos gestos: “No seu novo emprego, a palavra vai então servir para desintegrar as funções habituais da palavra” (VIRMAX, pag. 90).
A tradução dessas imagens numa linguagem nova e discursiva, torara-se totalmente inútil diante do sentido preciso e intuitivo que os signos espirituais do teatro de Bali propõem. O efeito que essas imagens resultariam no público é uma intensa sensação de fantasia e riqueza enlouquecedoras.
A sutileza dos gestos, as variações de voz e os movimentos precisos seriam como um despertar mágico que acontece diretamente no espírito humano. A linguagem do teatro de Bali seria como uma fala anterior as palavras, “um estado anterior à linguagem e que pode escolher sua linguagem em música, gestos, movimentos e palavras” (ARTAUD, pag. 81).
Virmaux resume a visão que Artaud tem do teatro de Bali dizendo que “o que o entusiasma particularmente no espetáculo dos balineses é que, ao contrário de todo o teatro ocidental, ele encena uma lição de espiritualidade” (VIRMAX, pag. 48).


VII – Parte 6: TEATRO ORIENTAL E TEATRO OCIDENTAL

Artaud privilegia o teatro oriental ao ocidental. Ele dá como exemplo e inspiração o teatro de Bali que, segundo ele, nos fornece uma idéia física e não verbal, independente do texto, que no teatro ocidental é visto como literatura, como elo psicológico da cena, como supremacia da palavra no teatro.
O que Artaud pretende é buscar uma linguagem teatral pura, que atinja os mesmos objetivos interiores das palavras através das formas, sons, gestos e que coloque o seu sentido no mesmo nível que a linguagem articulada. O espírito deverá absorver essa nova linguagem teatral pura, que atinja os mesmos objetivos interiores das palavras através das formas, sons, gestos e que coloque o seu sentido no mesmo nível que a linguagem articulada. O espírito deverá absorver essa nova linguagem através do pensamento, ou seja, através daquilo que ela realmente representa e não simplesmente do que ela mostra. “Fazer isso, ligar o teatro à possibilidade de expressão pelas formas, e de tudo que houver em matéria de gestos, ruídos, cores, plasticidades, etc, é devolvê-lo à sua primitiva desatinação, é colocá-lo em seu aspecto religioso e metafísico, é reconciliá-lo como universo” (ARTAUD, pag. 92).
A real intenção de Artaud é saber se o espírito poderá ser capaz de absorver a linguagem icônica e visual no espaço da mesma maneira que consegue captar a linguagem articulada e o seu conteúdo psicológico. Para ele, o domínio do teatro não é psicológico, mas plástico. Com isso, ele não tenta eliminar a palavra do teatro, mas mudar a sua destinação, ou seja, torná-la apenas um meio de conduzir a expressão humana juntamente com os outros signos teatrais.
Essa metafísica formal de várias possibilidades no teatro fará surgir a idéia de uma poesia que se confundirá com a bruxaria. Essa tendência metafísica do teatro oriental, que se opõe a psicologia do ocidental domina, segundo Artaud, ao mesmo tempo, todos os planos do espírito. Extrair dos gestos, palavras, sons, músicas e da combinação deles a objetividade necessária é utilizar uma linguagem mágica que constituirá a encenação como uma bruxaria.


(foto divulgação)

VIII – Parte 7: É PRECISO ACABAR COM AS OBRAS PRIMAS

Ao dizer que as obras primas são qualidades do passado e que não servem para o tempo atual, Artaud propõe uma linguagem inovadora, recheada de riscos, na qual as imagens físicas e violentas instiguem a sensibilidade do público que se vê preso por forças superiores. Ele propõe a quebra dos antigos padrões em prol do movimento, da inquietação, da reflexão através de caminhos que não são confortáveis para nós. Ao abandonar as fórmulas psicológicas, vamos nos ater ao extraordinário da vida, que através da arte, mais empiricamente através do teatro, nos livre do lugar comum ao qual estamos habituados.


IX – Parte 8: O TEATRO DA CRUELDADE

Artaud nos diz que tudo o que atua é uma crueldade, portanto propõe um teatro que transforme o público presente com nervos e corações despertados.
O teatro da crueldade propõe estabelecer sobre os interesses das massas através de um espetáculo em movimento influenciando todos os espectadores, ou seja, um “espetáculo total” que explore a sensibilidade nervosa do público, “nesse espetáculo de tentação onde a vida tem tudo a perder e o espírito tudo a ganhar” (ARTAUD, pag. 112).
Alain Virmaux nota que Artaud “preconiza para o teatro da crueldade um espetáculo giratório e que propõe colocar o espectador no meio da ação para que seja envolvido e marcado por ela” (VIRMAUX, pag. 52).


X – Parte 9: O TEATRO DA CRUELDADE (Primeiro Manifesto)

Nesse primeiro manifesto, Artaud fortalece a idéia de que um teatro como ele imagina só será possível através da ligação mágica que privilegie o perigo e a atrocidade. Nesse sentido, o teatro deverá ter fundamentos orgânicos. Artaud utiliza termos como o exorcismo, as tentações, os encantamentos, etc. A linguagem pretendida será alcançada via linguagem do pensamento e do gesto. A crueldade é a base para que tudo se estabeleça.
A busca é feita pelo que pode ser expressado além da aplicação comum e cotidiana das palavras, dos sons, dos gestos e de toda a expressão intelectual e sensível que fuja da significação meramente psicológica. Uma metafísica da linguagem. O que importa para Artaud é que “através dos meios seguros, a sensibilidade seja colocada num estado de percepção mais aprofundada e mais apurada, é esse o objetivo da magia e dos ritos, dos quais o teatro é apenas um reflexo” (ARTAUD, pag. 117).
A técnica utilizada será a via de fornecer ao público uma visão de sonho, imagens sensitivas, uma absorção que o público obterá interiormente através desses estímulos. Os temas serão como chaves que funcionarão de elo de ligação entre as imagens e projeções apresentadas com o entendimento sensorial e intelectual.
O espetáculo deverá conter elementos físicos, objetivos e comuns a todos. A encenação será a mola propulsora para o processo criativo. A linguagem deverá propiciar uma leitura onírica da realidade. Os signos teatrais como a música, a luz e o figurino deverão fugir das concepções usuais e temporais, ou seja, deverão propiciar novas leituras estéticas e reflexivas.
No lugar do cenário estarão signos plásticos que remetem a outros lugares que não os comuns aos espectadores. O local, ou sala de espetáculo, não deverá separar a cena do público, ou, em outro sentido, o público deverá estar no meio ou arredores da ação propiciando uma comunicação direta entre espectadores e espetáculo. Com relação ao espaço cênico, Virmaux afirma que Artaud “sempre desejou para seu teatro um lugar novo e fundamentalmente diferente das salas tradicionais” (VIRMAUX, pag. 70).
O ator é um elemento de extrema importância e sua eficaz interpretação desencadeará o sucesso do espetáculo. Sua interpretação será formatada como uma linguagem codificada em movimentos e ritmos. A verdade e a naturalidade das entonações deverão ser aplicadas pelos atores como um exagero da interpretação e, dessa forma, “será preciso encontrar um tom de uma naturalidade pouco utilizada, escondida e como que esquecida, porém tão verossímil e tão real quanto um e outro” (VIRMAUX, pag. 55). Com relação ao espectador, Virmaux observa que “a condição essencial de uma ação física sobre o organismo do espectro reside na presença direta do ator” (VIRMAUX, pag. 67).


(foto divulgação)

XI – Parte 10 – CARTAS SOBRE A CRUELDADE

Nas três cartas publicadas, Artaud tenta esclarecer o que é o princípio da crueldade. O termo é usado para qualificar não uma situação de sadismo ou terrorismo e sangue, mas para qualificar o rompimento com o sentido usual da linguagem que retornarão as origens etimológicas da língua através dos conceitos abstratos que resultarão numa linguagem concreta. A crueldade “é uma espécie de direção rígida, submissão à necessidade” (ARTAUD, pag. 132).
Esse sentido de aplicação do termo crueldade está inteiramente ligado ao desejo de vigor e relação entre as forças opostas. Está ligado ao caráter vivo da lembrança, ao apetite e a força para tornar a cena em um constante movimento viril. A crueldade é a força, sem resistência, capaz de alcançar qualquer objetivo. É um impulso racional que move os desejos e necessidades mais básicas do ser humano.
Alain Virmaux sintetiza o objetivo do teatro da crueldade dizendo que ele “pretende fazer da representação algo tão localizado e tão preciso quanto à circulação do sangue nas artérias” (VIRMAUX, pag. 73).


XII – Parte 11- CARTAS SOBRE A LINGUAGEM

A encenação para Artaud é a parte verdadeiramente teatral do espetáculo. A cena é um espaço a ser ocupado e onde as coisas acontecem e, dessa forma, a linguagem das palavras deve dar lugar à dos signos, linguagem essa que atinja nossos sentidos de modo mais imediato: “Trata-se de conferir à representação teatral o aspecto de um espaço devorador, (...) que no domínio psicológico ou cósmico, se identifique com a crueldade” (VIRMAUX, pag. 84).
Artaud busca mudar o ponto de partida da criação teatral, substituindo a linguagem comum por uma diferente, “cujas possibilidades expressivas equivalerão à linguagem das palavras, mas cuja ordem será buscada num ponto mais profundo e mais recuado do pensamento” (ARTAUD, pag. 140).
As indicações dessa nova linguagem ainda deverão ser encontradas, voltando ao gesto de maneira espontânea, onde “gritos, onomatopéias, signos, atitudes e de lentas, abundantes e apaixonadas modulações nervosas, plano a plano, e termo a termo, essa linguagem se empenha em fazer todo o espaço falar, segundo o simbolismo e as analogias. Artaud busca tornar mágica a velha linguagem articulada através dos signos e novas possibilidades, proporcionando um “desencadeamento dialético da expressão” (ARTAUD, pag. 144).
Com relação ao principio do teatro, Artaud diz que ele é metafísico e, dessa forma, seu objetivo seria de criar mitos, “traduzir a vida sob seu aspecto universal, imenso e extrair dessa vida imagens nas quais gostaríamos de nos reconhecer” (ARTAUD, pag. 148).
A linguagem articulada das palavras deverá, segundo ele, ser substituída por gestos, jogos e repetições que sugeririam um maior número de imagens no cérebro do espectador. A volta do teatro para as origens ritualísticas seria um viés necessário para que o teatro se reafirme como linguagem.


XIII – Parte 12 - O TEATRO DA CRUELDADE (Segundo manifesto)

Com o teatro da crueldade, Artaud procura estabelecer um teatro construído sobre as idéias de rigor violento, condensação dos elementos cênicos, agitações e inquietudes características da época atual. O teatro buscará produzir mitos do ser humano e da vida moderna.
O homem total é o que pretende mostrar Artaud, ou seja, o objetivo de estudo não será apenas as características simbólicas do home e nem seu contexto puramente social. Esse teatro se dirigirá pela submissão às leis e preceitos.
O retorno aos mitos primitivos fará com que a encenação atualize os conflitos mais antigos do ser humano através de uma linguagem de movimentos e gestos que será sentida diretamente pelo espírito sem as deformações da linguagem articulada em palavras. O espetáculo será estruturado sobre todos os planos possíveis através de um grande número de imagens físicas e signos ligados aos momentos. Essa linguagem física só terá a sua real eficácia através da magia de uma atmosfera hipnótica em que o espírito seja atingido pela explanação dos sentidos.
Artaud sugere que as dissonâncias estejam presentes na criação do espetáculo que ocupará toda a extensão da sala de espetáculo. Dessa forma, o teatro será apresentado como uma continuidade da vida através dessa linguagem simbólica e icônica.


XIV – Parte 13 – UM ATLETISMO AFETIVO

Com relação ao trabalho do ator, Artaud reafirma a proposta de localizar fisicamente os sentimentos numa espécie de musculatura afetiva. “O ator é como um atleta do coração. (ARTAUD, pag. 162). O corpo do ator é apoiado pela respiração, uma questão primordial para Artaud, e cada movimento corresponde a uma nova respiração. Para ele, o ator deve pensar com o coração e deve procurar materializar suas paixões, ou seja, “a crença em uma materialidade fluídica da alma é indisponível à profissão do ator” (ARTAUD, pag. 164).
O conhecimento da respiração dá sentido as relações que o ator faz com o ambiente e com sua preparação física, assim, através da respiração, o ator “cava sua personalidade” (ARTAUD, pag. 166). Através de um conhecimento físico, qualquer ator pode aumentar a intensidade e o volume dos seus sentimentos.
No desenvolvimento desse teatro, a relação da poesia com a ciência deve ser desenvolvida segunda a noção de que toda emoção tem bases orgânicas. “Uma ciência tão exata quanto possível e relativa aos recursos do corpo, aos efeitos da luz e do som sobre os corpos” (VIRMAUX, pag. 74).

XV – Referências bibliográficas:

ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. Lisboa: Minotauro, s.d. (São Paulo: Max Limonad, 1884)

VIRMAUX, Alain. Artaud e o Teatro. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura (1 ed. Paris, 1970). São Paulo: Perspectiva, 1978.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

FIM DE ANO


Escrever mais assiduamente aqui no blog neste ano de 2010 foi algo que passei desejando o tempo todo. Por outro lado, não posso me lamentar muito também porque foi por um grande motivo: trabalhei bastante. O trabalho, quando é feito com bastante vontade, acaba substituindo outros prazeres como o de escrever por paixão, por exemplo.


Trabalhei com muita gente boa e querida. Aprendi muito. Troquei muito. Também perdi, mas os ganhos foram muito maiores. Fiz grandes amigos, ampliei a amizade com antigos amigos e, graças a Deus, não fiz nenhum inimigo.

Quando pensei que o ano terminaria bem, me surpreendi, fui indicado ao Prêmio Gralha Azul 2010 e o ganhei por um dos dois trabalhos que estavam na lista dos que mais tinham me dado prazer em fazê-los neste ano. Amigos queridos torceram por mim, fiquei muito feliz.

Quero aproveitar o final de ano para agradecer todos os profissionais com quem trabalhei - artistas, produtores e diretores. Foi um grande prazer. Que nos próximos anos possamos repetir nossa parceria bem acertada.

Agora saio para minhas tão merecidas férias e na segunda quinzena de janeiro estarei de volta para dar sequência nos projetos que já estréiam em fevereiro de 2011.

Ótimo final de ano para todos, que as energias sejam todas renovadas e boas férias!

Beijo grande,

Paulo Vinícius.