sábado, 20 de fevereiro de 2010

PESSOA, PREGO E PELÚCIA

(foto de Leco de Souza)

Muitas vezes me pergunto aonde o teatro quer chegar. Geralmente isso acontece quando saio de um teatro com a sensação de que o espetáculo ainda não terminou dentro de mim. O movimento interno, provocado por questões ou emoções causadas por aquilo que vi em cena pode ir do estranhamento ao riso, da dúvida ao descobrimento e da angústia à satisfação. O RAPAZ E A RAPARIGA – PEÇA DE PESSOA, PREGO E PELÚCIA foi um destes espetáculos que me colocou neste lugar de reflexão.
Vi o espetáculo no último dia da primeira semana da temporada que acontece até o dia 14 de março no teatro Novelas Curitibanas, sempre as 20h. A produção é uma realização da Couve-flor Microcumunidade Artística Mundial com financiamento da Fundação Cultural de Curitiba. O processo criativo e colaborativo se deu entre os artistas Cândida Monte, Elizabete Finger, Gustavo Bittencourt, Neto Machado, Ricardo Marinelli e Well Gutti.
A inspiração para o trabalho veio da obra do cineasta e autor Tim Burton. O ponto de partida para o início da criação foi o livro A morte melancólica do rapaz ostra e outras histórias. Vemos em cena quatro discursos diferentes, quatro personagens que se entrecortam e que são apresentados a partir de uma estética desenvolvida sobre referências góticas, surreais e bem humoradas. São quatro argumentos metafísicos, quatro universos fantásticos, construídos a partir da contaminação que as idéias de Tim Burton influenciaram no processo criativo dos artistas.
Tudo parece ter sido desenvolvido a partir da linguagem da performance que o grupo se apropriou de forma muito eficaz e, apesar de ter sido uma linguagem surgida ainda nos anos 60, o espetáculo traz um frescor de algo inusitado.
Como falar mais sobre O RAPAZ E A RAPARIGA sem estragar a sensação de descoberta para quem ainda verá o espetáculo? Não saberia responder. Apenas acho que esta é uma aventura que toda pessoa interessada em teatro deveria experimentar e descobrir por si própria os códigos que a levarão à uma interpretação pessoal das cenas apresentadas na mais recente empreitada do Couve-flor.
Vale a pena ir. Eu fui e gostei muito. Se você for, deixe a expectativa e os preconceitos em casa. Permita-se a experimentar e, se estiver conectado com a arte contemporânea, tenho certeza de que vai ter uma boa experiência.
Boa viagem!
(foto de Leco de Souza)

FICHA TÉCNICA:
Uma criação de e com: Cândida Monte, Elisabete Finger, Gustavo Bitencourt, Neto Machado, Ricardo Marinelli e Well Guiti - Apoio à pesquisa dramatúrgica: Jorge Alencar - Consultoria de materiais de cena: Amábilis de Jesus - Designer de luz: Fábia Guimarães - Conceito visual e material gráfico: Atelier Utrabo Monteiro - Produção: SELO - Produção e Gestão Cultural - Projeto: Couve-flor Minicomunidade Artística Mundial, associado à Aspart - Incentivo: Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Fundação Cultural de Curitiba, Prefeitura Municipal de Curitiba

IMPORTANTE: O ingresso no Novelas Curitibanas não é mais uma lata de leite em pó como estamos acostumados. Agora a inteira custa R$10,00 e a meia entrada R$5,00, super acessível. O horário também mudou, agora todas as sessões, de quinta a domingo, acontecem sempre as 20h.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

UM HOMEM CÃO


A Caixa Cultural apresenta nos próximos dias 19, 20 e 21 de Fevereiro o espetáculo THE CACHORRO MANCO SHOW, solo do grande e querido ator Leandro Daniel Colombo. Velho conhecido do público curitibano, principalmente pelo trabalho desenvolvido com a companhia Vigor Mortis, Leandro Daniel é uma das duas melhores coisas do espetáculo. A outra é o texto de Fábio Mendes.
Vi o espetáculo em Novembro de 2008 quando esteve em cartaz no teatro Barracão em Cena de Curitiba. Aquela temporada aconteceu logo depois da estréia no Teatro Municipal Maria Clara Machado no Rio de Janeiro. Depois disso, o espetáculo ainda fez turnês em Brasília, novamente no Rio, em Lisboa e São Paulo.
O espetáculo já traz no currículo alguns prêmios, indicações e ótimas críticas. Leandro foi indicado ao Gralha Azul de Curitiba como melhor ator em 2008 e ao 3º. Prêmio da revista Quem como melhor ator em 2009 ao lado de grandes nomes do teatro nacional como Antônio Fagundes, por exemplo. Fábio Mendes ganhou o Prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia Antonio José da Silva e o Prêmio APCA de melhor autor em 2009.
Quem ainda não viu não pode perder esta próxima oportunidade ofertada pela Caixa Cultural. Depois disto, THE CACHORRO MANCO SHOW ainda poderá ser visto em pouquíssimas e disputadíssimas apresentações em Março no Festival de Curitiba.
Fica a dica. Vá ver e depois me conte. Se já viu, veja de novo. Acredito que um bom espetáculo, assim como um bom vinho, quanto mais envelhece melhor fica.

(foto de Guga Melgar)

SOBRE O ESPETÁCULO
"O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza;
o roubar com pouco faz os piratas,
o roubar com muito, os Alexandres".
(Fábio Mendes)

Um mendigo. Uma metáfora dos excluídos. O homem-cão oferece sua narração em troca de um pouco de ração na procura de um dono. Uma comédia dramática, o stand-up de um cachorro que faz seu show pelas margens da sociedade.
O espetáculo traz pouquíssimos recursos cênicos, faz valer a relação texto x interpretação. Ótima opção pra quem procura na dramaturgia a possibilidade de ver uma grande atuação.
Na ficha técnica, além do autor Fábio Mendes e do ator Leandro Daniel, o espetáculo conta com a direção de Moacir Chaves, cenário de Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque, figurino de Inês Salgado, iluminação de Aurélio de Simoni, direção musical de Tato Taborda, programação visual de Maurício Grecco, fotos de Guga Melgar, assistência de direção de Diego Molina e direção de produção de Paulo Felisbino.
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SERVIÇO: THE CACHORRO MANCO SHOW - com Leandro Daniel Colombo – Dias 19, 20 e 21 de Fevereiro no Teatro da Caixa Cultural em Curitiba. Sexta e sábado as 21h e domingo as 19h.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

CAFÉ COM GEORGE SADA

(George Sada - Foto de Bebel Ritzmann)

Passei seis meses esperando por este encontro. Fiz o convite ao George no início do segundo semestre de 2009. Não conseguimos coincidir um horário nas nossas agendas em todo este tempo. Finalmente no último sábado tive o prazer de receber George Sada para um café em casa. Com o alto astral de sempre, ele veio acompanhado do nosso querido amigo Humberto Gomes. Foram quatro horas de muito papo, muitas risadas, revelações e reafirmações. Nosso encontro tornou meu início de ano ainda mais prazeroso.
No quesito relações humanas, George conquistou unanimidade na simpatia de todos que se relacionam com ele. Não há quem não concorde que George é uma das raras criaturas no mundo que dominam o relacionamento interpessoal, que sempre soube tratar muito bem qualquer pessoa de quem dele se aproxima. Acredito que isto se deva principalmente ao fato de que ele sempre age impulsivamente movido pela paixão à vida e à arte com uma dose caprichada de generosidade ao próximo.
No campo profissional ele sempre teve muito pra mostrar e contar. É isso que pretende este texto que, carinhosamente, agora escrevo aqui no blog. Que ele receba minhas palavras como quem recebe uma homenagem. Que você leitor as receba como uma doce história que precisava ser ouvida. E que eu consiga escrevê-las com a mesma competência que ele caminha sobre os caminhos sinuosos desta vida que embala a todos nós.


(George recebendo o Troféu Gralha Azul por melhor direção em 2008 - foto divulgação)

UMA CARREIRA DE CONQUISTAS
Depois de cursar psicologia, período entre os anos de 1981 e 1985, George Sada, formou-se no curso de Artes Cênicas da antiga PUC/PR que mais tarde foi encampado pela Faculdade de Artes do Paraná, onde George se tornou coordenador do curso de artes cênicas, chefe do departamento de teatro e professor de interpretação em 1990. Sua atividade na FAP se estendeu até 1998.
Como ator ele traz no currículo mais de 40 espetáculos e, do início da carreira, lembra a importante influência transmitida por diretores como Lilian Fleury, Hugo Mengarelli, Edson Bueno e do colega de curso da época de faculdade, o Cleon Jaques. George fala também da importante marca que a diretora Mona Lazar, vinda do Rio de Janeiro, deixou na sua formação de ator, através do processo de montagem do espetáculo O EXERCÍCIO em 1999. Ainda não tive oportunidade de vê-lo em cena, porém na edição de 2010 do Festival de Curitiba, George estará no elenco da produção de XAROPE PARA ACABAR COM A TOSSE, espetáculo dirigido por Humberto Gomes que acontecerá nas dependências de uma farmácia no centro de Curitiba.
Como diretor já tive o prazer de assisti-lo algumas vezes, ele já assinou mais de 200 espetáculos somando as direções que desenvolveu na escola onde leciona e onde também é diretor, a Academia de Artes Cênicas Cena Hum.
No teatro, George também já atuou como figurinista, cenógrafo, maquiador e produtor. É um profissional competente, totalmente apaixonado pelo oficio, apaixonante e capaz de empolgar todos que estão ao seu lado. Sua carreira sempre foi motivada paixão, pelo sonho de ver o teatro como elemento multiplicador das idéias que brotavam dentro de si, como uma voz que sempre o impulsionava. Entre tantas habilidades e funções, ele ainda é professor de interpretação para os bailarinos da Escola de Dança do Teatro Guaíra e o responsável pelo desenvolvimento de roteiros para os espetáculos. Como funcionário do Teatro Guaíra, George trabalha desde 1990. Haja energia pra tanto. Assim como eu, ele também é uma pessoa viciada em trabalho, destas que bastam apenas 10 dias de férias para não mais agüentar a tranqüilidade e querer voltar correndo para o que realmente interessa.


(foto divulgação)

CENA HUM
A Academia de Artes Cênicas Cena Hum, escola fundada por George e dirigida por ele até hoje, ao lado do sócio Márcio Vegas, é o resultado de um investimento que dura mais de duas décadas, já que a escola começou a ser planejada mais de 06 anos antes de sua inauguração em 1995. Quem vê as atuais dependências da nova sede própria e o resultado das produções da escola não imagina que a escola iniciou as atividades com duas pequenas turmas, que somavam doze alunos e apenas dois professores. Hoje a escola emprega uma equipe de 30 profissionais, entre professores, funcionários administrativos e pedagógicos e inúmeras turmas de alunos somando mais de 250 matrículas. Tenho também o prazer de fazer parte da equipe de professores e poder exercer o delicioso ofício de lecionar interpretação para os alunos. É muito bom poder trabalhar dentro de um ambiente com astral tão leve e também conviver com uma equipe que sempre leva o trabalho tão à sério como na Cena Hum.
A nova sede, inaugurada no início do semestre passado, conta, entre outros espaços, com vários e amplos estúdios de aula, biblioteca, sala de áudio/visual, cantina, guarda roupa com mais de 5.000 peças e um teatro adaptável a diversos estilos de montagens.
Um bom exemplo para quem ainda duvida que não devíamos agir somente por princípios racionais é a própria história de como George fundou a escola. Ele conta que quando tomou definitivamente a decisão de abrir a escola, ainda não possuía nenhum capital investidor. Quando foi fechar o contrato de locação do prédio, tudo o que tinha no bolso era uma moeda de 25 centavos. A fixação pelo sonho de ver sua escola funcionando era tanta que nem mesmo a limitação financeira o impediu de vê-lo realizado.
Outra boa história que George nos conta emocionado, é o momento de escolher o nome da escola. Na véspera do dia em que a empresa seria aberta, ele ainda não tinha conseguido escolher um nome. A escolha veio durante a noite. No seu sonho, numa espécie de teste onde só ele estava sentado na platéia de um teatro e esperando para ser chamado, o homem que estava sentado sozinho no palco lhe disse, um segundo antes dele acordar: “venha para a cena um!”. Depois disso, a escolha de colocar o H no nome, veio principalmente pela vontade de dizer que o trabalho que estava disposto a desenvolver seria totalmente preocupado com o lado humano das relações.
Além dos cursos de oficina e de iniciação teatral, a escola oferece nesses 14 anos de atividades o curso de formação de atores com duração total de 3 anos. Vários atores que hoje estão no mercado nacional se formaram pela escola. Da primeira turma, George lembra, entre outros, os nomes de Laura Haddad e de Luis Brambilla. Para 2010 a escola também abrirá novas turmas diante da grande procura no final do semestre.
No final de cada ano a escola entrega o Troféu Cena Hum para os melhores do ano numa festa bastante badalada.
Sobre os projetos para 2010 e as novas produções do núcleo profissional da Cena Hum, George prepara algumas surpresas, entre elas um musical sobre Elis Regina, espetáculo que já está em pré-produção. Neste ano também, o espaço teatro da escola também será aberto para outras temporadas que não sejam apenas para as mostras de conclusão dos cursos da escola.
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Fico muito feliz em poder falar deste artista guerreiro que é o George, de poder estar ao lado de uma pessoa tão querida, que sempre soube valorizar o que deveria ser priorizado em qualquer relação profissional: a relação humana, solo fértil de onde sempre brota as melhores e mais prazerosas parcerias.
Salve George!
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Para quem ainda não conhece a Cena Hum, mas gostaria de fazer uma visita, o endereço é Rua Senador Xavier da Silva, 166, próximo ao Shopping Muller. Maiores informações pelo telefone (41) 3333-0975.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

BOA NOVA NO PEDAÇO: Alexandre França

(Alexandre França clicado por Albert Nane)

Todo mundo sempre soube que eu adoro falar bem dos artistas e trabalhos que eu me relaciono e admiro. Reconheço em mim a virtude de admirar artistas e trabalhos diferentes entre si, desde que sejam sempre de boa qualidade. Estilo nunca me aprisionou muito. Gosto de transitar, mas ao mesmo tempo de também permanecer. Isto sempre ocorre quando acredito realmente em algo. Distingo sempre entre aquilo que é bom daquilo que é ruim, nunca entre aquilo que é certo daquilo que é errado. Neste ano de 2010 continuarei valorizando o trabalho dos artistas que tem o que mostrar. Profissionais que admiro e que sempre estou por perto, mesmo que seja só para admirar. A lista é grande. Escolhi começar por Alexandre França.
É ótimo poder lembrar que vem surgindo em Curitiba uma nova geração de dramaturgos. Alexandre França, dramaturgo e músico, é uma boa lembrança de um representante desses autores. É ótimo também lembrar que esses novos dramaturgos vem diretamente ao encontro dos interesses dos novos encenadores de plantão. Um bom texto sempre é muito sonhado pelos profissionais do teatro.
Admiro muito o trabalho dos bons dramaturgos, com linguagens distintas, com estilos e estruturas interessantes. Dos dramaturgos já veteranos em Curitiba cito, entre outros tão talentosos, o nome de Sueli Araujo e Paulo Biscaia que sempre me fascinaram pelo trabalho autoral, cada um no seu estilo, mas ambos geniais no que acreditam. Uma boa dramaturgia sempre influiu muito na qualidade final do espetáculo.
Alexandre França é um autor que veio da música, já que esta foi a primeira atividade profissional que exerceu. Ele já teve dois CDs gravados e produzidos, A SOLIDÃO NÃO MATA, DÁ A IDÉIA em 2006 e MUSICA DE APARTAMENTO em 2009. Na área da música, França tem um trabalho bem bacana e sempre está muito bem acompanhado de excelentes músicos.
Tenho acompanhado seus textos desde o primeiro a ser encenado em 2007 com as atrizes Helena Portela e Verônica Rodrigues, UM IDIOTA DE PRESENTE, quando fui convidado para fazer o figurino e o cenário desse e do próximo espetáculo, FINAL DO MÊS com Claudete Pereira Jorge e Helena Portela no elenco e Verônica Rodrigues na produção. Depois disso, o França escreveu alguns textos, apresentados em leituras dramáticas ou apresentações que não pude estar presente e também outros textos que tive a oportunidade de ler. Cada um tem suas características e qualidades específicas. Vi também GINA, monólogo escrito para a triz Maia Piva. Seus textos estão cada vez melhores. Nos últimos que li, ainda não encenados, vi novos apontamentos na estrutura e no estilo, novidades que vieram para amadurecer muito e deixar suas tramas ainda mais sofisticadas.
Fique de olho.
Vida longa a Letra e a Música de Alexandre França.
Os artistas e o público curitibano agradecem.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

DEZEMBRO


Queridos leitores, assim como eu, o Blog tira férias neste mês de Dezembro.

Neste ano de 2009 foram vários e prazerosos os encontros aqui no Figurino e Cena. Agradeço imensamente os artistas que aqui estiveram e os espetáculos ou Companhias que me motivaram a escrever.

Muito obrigado a você leitor por ter estado aqui uma ou mais vezes, tenho acompanhado o relatório de visitantes e, cada vez mais, fico muito feliz por saber que nunca estou sozinho. A lista de artistas que desejo encontrar aqui é imensa e, no próximo ano, continuarei recebendo visitas ilustres, queridos amigos e divulgando os trabalhos que eu acredito muito.

Enfim, tenham todos um ótimo fim de ano!

Nos encontramos em Janeiro com energias renovadas.

Grande beijo a todos,

Paulo Vinícius.

domingo, 29 de novembro de 2009

MANSON SUPERSTAR


A companhia curitibana Vigor Mortis encerra as atividades em 2009 com mais uma grande produção. Trata-se da estréia de MANSON SUPERSTAR, resultado do edital de ocupação do Teatro Novelas Curitibanas, uma iniciativa da Fundação Cultural de Curitiba. A companhia, liderada por Paulo Biscaia Filho, mostra no palco do Novelas o resultado de como a boa organização e administração de um projeto pode valer o dinheiro público investido na arte. MANSON é um espetáculo musical formado por oito atores no elenco e mais uma equipe de dez pessoas revelando ao público como o teatro pode se apropriar da linguagem documentária de forma rica e brilhante. Tudo é preciso e bem executado. Como causa, só posso identificar o encontro de uma equipe muito competente, dirigida por alguém que sabe muito o que quer.



O ESPETÁCULO E O PROCESSO
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MANSON SUPERSTAR é um espetáculo diferente de tudo o que já foi produzido pela Vigor Mortis. O fato de ser um espetáculo teatral que seria também, ao mesmo tempo, documentário e musical, impulsionou o diretor, desde a concepção do projeto, a se aventurar por um terreno desconhecido até então do seu processo de criação. Paulo Biscaia queria buscar uma nova fórmula para este espetáculo e acordou com toda equipe que andaríamos por lugares desconfortáveis até que um solo seguro fosse encontrado. Biscaia sabia o que queria, mas, no começo de tudo, nem ele sabia ao certo onde e quando pararíamos para respirar tranqüilos.
Depois de muitas reuniões, muitas pesquisas e acesso à um grande material que documentou a história dos crimes de assassinatos liderados por Charles Manson no final da década de 60, o elenco, sempre acompanhado pela equipe de criação, foi para a sala de ensaios diários apenas com um roteiro de cenas e uma sugestão de canção para cada cena que seria desenvolvida. Ao final da segunda semana uma nova estética já tinha sido apontada e guiaria também a concepção final do cenário, do figurino, da luz e da direção musical.
Entre achados e perdidos, várias propostas foram substituídas, abandonadas, invertidas, superadas e reencontradas ao longo do processo. A preocupação com o público, característica fundamental no trabalho da companhia, mais uma vez esteve presente durante todo o percurso desenvolvido.
É um novo espetáculo, com uma nova pegada na concepção, na dramaturgia, na direção e no acabamento estético, porém a qualidade e a criatividade, características básicas da Vigor Mortis, continuam impressas na encenação de MANSON SUPERSTAR por Paulo Biscaia.
Para mim, foi novamente um grande prazer estar na companhia, participar de todo o processo, assinar o cenário e os figurinos, conviver com uma equipe e um elenco sempre tão competente, queridos, disponíveis e generosos. Obrigado a todos. Obrigado a fada madrinha Tânia Araujo. Obrigado ao querido mestre Paulo Biscaia.
MANSON SUPERSTAR é um espetáculo lindo e forte. Tenso e pesado. Mesmo depois de ver vários ensaios e apresentações continuo me arrepiando e me emocionando com as cenas. Falar mais sobre ele seria censurar o público do prazer ao se surprender com as novidades.
Não percam!

MANSON SUPERSTAR fica em cartaz até o dia 20 de Dezembro no teatro Novelas Curitibanas -De quinta a Sexta as 21h e Domingos as 19h – Apropriado para maiores de 18 anos – Ingresso: Uma lata de leite em pó.

FICHA TÉCNICA:
Direção, roteiro e sonoplastia:
Paulo Biscaia Filho / Elenco: Andrew knoll, Leandro Daniel Colombo, Carolina Fauquemont, Wagner Correa, Michelle Pucci, Marco Novack, Rafaela marques e Ana Clara Fischer. / Cenografia e Figurino: Paulo Vinícius / Direção Musical: Gilson Fukushima / Iluminação: Wagner Correa / Produção: Tânia Araujo / Operação de som e adereços: Thiago Di Giovanni / Operação de luz: Erica Mityco e Viviane Mortean / Cenotécnico: Alfredo Gomes / Projeto gráfico e ilustração: José Aguiar


FATOS HISTÓRICOS QUE COSTURAM O ESPETÁCULO



1966
- Charles Manson é transferido para a prisão de Terminal Island. Ele já tinha passado mais da metade de seus 32 anos na cadeia.
- Susan Atkins era uma garota que saiu de casa e foi trabalhar como dançarina topless em uma revista musical satânica conduzida por Anton Lavey, o Papa do satanismo.
- Roman Polanski inicia uma relação com Sharon Tate durante as filmagens de "Dança dos Vampiros". Depois de ter iniciado o romance, Sharon termina com seu namorado, Jay Sebring, um famoso cabeleireiro de Hollywood.
-Leslie Van Houten é eleita Rainha da Escola em Altadena na Califórnia.
- Patrícia Krenwinkel abandona o Colégio Jesuíta no Albama e foge para a Califórnia.
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1967
-Charles Manson é liberado da prisão contra a sua vontade.
-Roman Polanski começa as filmagens de "O bebê de Rosemary" após casar com Sharon Tate.
- Manson chega a São Francisco e, no auge do Verão do Amor, começa a fazer amigos em Haight-Ashbury. Seu carisma começa a reunir dezenas de jovens, entre eles Susan, Leslie, Patrícia e Tax Watson, um ex aluno modelo e ex jogador de futebol americano amador.
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1968
- O bebê de Rosemary é lançado nos cinemas.
- Jay Sebring se aproxima como amigo da família de Polanski, apenas para poder ficar próximo a Sharon.
- Manson estabelece sua "família" no Rancho Spahn, um antigo cenário de filmes de faroeste no Vale da Morte.
- O White Álbum dos Beatles é lançado.
- Manson faz amizade com um integrante dos Beach Boys e através dele faz uma gravação e contatos com produtores musicais.
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1969
- Sharon Tate conta a Polanski sobre sua gravidez. Ele não queria ter filhos, mas com o tempo aceitou.
- Manson não recebe resposta do produtor musical Terry Melcher. Com o constante assédio de Manson, Melcher decide se mudar e aluga sua casa no endereço 10050 Cielo Drive para a família de Polanski.
- Manson ouve o White álbum dos Beatles e acredita que a faixa Helter Skelter é uma profecia apocalíptica sobre a guerra racial e que a "família" será a governante após as batalhas.
- No dia 9 de Agosto de 1969, Roman estava em Londres preparando seu próximo filme. Sharon estava em casa com Jay e outros amigos que lhe faziam companhia. Tex, Susan e Patrícia invadem a casa dos Polanski no meio da noite e matam todos ali. Sharon estava grávida de oito meses e meio. Susan usa o sangue de Sharon para escrever na porta da casa "Pig".
- Dois dias depois, Patrícia, Leslie e Tex invadem a casa do empresário Leno La Bianca e matam ele e a mulher com mais de 100 facadas. Na parede, Patrícia usa o sangue das vítimas para escrever "Helter Skelter".
- Manson declarou assim o início do Helter Skelter.
- Meses depois, a família é presa por roubo de carros e na cadeia Susan confessa a uma colega de cela sobre a morte de Sharon.
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1970
- O julgamento de Manson, Susan, Patrícia, Leslie e Tex se transforma em circo de mídia. Ao final do julgamento, todos são condenados a morte, mas antes de sua execução, a Lei na Califórnia muda e suas sentenças são alteradas para prisão perpétua.
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2009
- Roman Polanski é detido na Suíça por um crime cometido em 1978 nos EUA. Ele havia mantido relações sexuais com uma garota de 13 anos. Antes da decisão do Juiz, Polanski foge para a França onde passa a morar por mais de 30 anos. neste momento, Polanski aguarda decisão sobre a extradição e prisão.
- Em 24 de Setembro, Susan Atkins morre na prisão em consequência de um tumor no cérebro.
- Manson, Krenwinkel, Watson e Houten ainda estão detidos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O DISCURSO DA CENOGRAFIA

(Projeto de Adolph Appia para cenário - foto divulgação)

O discurso da cenografia se impõe hoje, cada vez mais, ao negar a idéia de decoração, ou seja, a cenografia ao ultrapassar a função simplista de ornamentação cênica, têm se apresentado muito mais próxima à idéia de necessidade, prática ou plástica, para a composição da cena teatral.
Esta abordagem não é uma invenção da cena contemporânea, ao contrário, já foi anunciada desde os tempos de Adolph Appia (1862- 1928) e Edward Gorgon Craig (1872-1966) que valorizaram a tridimensionalidade da cena e se afastaram dos painéis bidimensionais criados pelos pintores que, na maioria das encenações, desenvolviam os cenários até então. Appia foi um divisor de águas na história da cenografia. Ele profetizou o palco moderno. Para ele, a organização do espaço fechado do palco é sempre tridimensional. Craig também se opôs ao cenário bidimensional. Ele compartilhava das idéias de Appia e, por ter realizado vários trabalhos, suas idéias foram mais difundidas.
A cenografia é um dos elementos cênicos que compõem o espetáculo. Não é uma arte independente, como tudo no teatro, deve estar de acordo, dialogar, com todos os outros elementos: o ator, a dramaturgia, a direção, a luz, a sonoplastia, o figurino, a maquiagem, etc. A cenografia, junto com o figurino e a iluminação, são os elementos que, principalmente, definem a estética do espetáculo, ou seja, a plasticidade da cena.
O teatro é uma arte, essencialmente, desenvolvida em grupo, portanto, o cenário também deve ser criado e desenvolvido pelo cenógrafo em total parceria com a equipe de criação, formada principalmente pelo diretor, iluminador e o figurinista. É o principal recurso cênico responsável para definir o ONDE do espetáculo, ou seja, é o cenário quem materializa o lugar da ação. Ele deve estar em total acordo com a linguagem do espetáculo, seja ela realista, simbólica, impressionista, surrealista ou contemporânea.

(Projeto de Gorgon Craig para cenário - foto divulgação)

O cenário está muito mais para a escultura e para a arquitetura do que para a pintura. A pintura é, por sua vez, apenas uma das artes utilizadas pelo cenógrafo na tentativa de criar o espaço tridimensional onde se dará o jogo dos atores que também são tridimensionais e estão em constante movimento.
A iluminação é uma das principais aliadas da cenografia. Pode ser inclusive o principal elemento que dará corpo e volume para a plasticidade do espetáculo. Na contemporaneidade existem inúmeras criações onde os efeitos causados pela luz constituem a própria cenografia.
A cenografia, como qualquer outro elemento cênico, é signo, ou seja, é informação visual, capaz de provocar uma leitura ao espectador antes mesmo de qualquer palavra ser pronunciada. Dessa forma, a cenografia deve ser criada levando em consideração que ela deverá “falar” a mesma língua que o texto, o figurino, a direção, etc.
Hoje também trabalhamos com outros conceitos aplicados á cenografia. O de Ambientação cênica é um exemplo. A cenografia é a composição resultante de um conjunto de cores, luz, forma, linhas e volumes, equilibrados e harmônicos em seu todo, e que criam movimentos, lugares e contrastes. Desta forma, o cenógrafo, como qualquer outro programador visual, deve dominar os elementos da linguagem visual para estabelecer a qualidade do seu discurso.