terça-feira, 2 de junho de 2009

REGISTROS POÉTICOS: A fotografia de espetáculos

A fotografia, melhor do que qualquer outra linguagem tem sido, ao longo da história, a principal responsável pela divulgação e documentação dos espetáculos. Por sorte, hoje já temos vários fotógrafos que se especializaram na arte de fotografar espetáculos.
O que é captado pode ser um instante poético, um olhar peculiar do fotógrafo sobre a cena. Quando aberto, nos conta muito sobre a atmosfera do espetáculo. Quando fechado pode nos revelar muito sobre a interpretação do ator, sua intenção secreta, seu mistério e sua sedução.
Além da função documental, a fotografia é também uma obra de arte independente. Ao mesmo tempo em que ela depende do objeto fotografado para existir, do fenômeno, depois de revelada e exibida, ela se torna algo além da cena e do ator. É uma outra estética, fruto da técnica e arte do fotógrafo. Dessa maneira, cada profissional tem suas próprias ferramentas que também independem da técnica. É pura poesia visual.
Nesse sentido uma fotografia pode dizer muito mais sobre um espetáculo do que ele realmente foi, pode inclusive valorizá-lo ou o contrário, pode limitar o seu entendimento pelo observador. De qualquer forma, nós, operários dessa arte efêmera que é o teatro, temos muito a agradecer o talento e a dedicação desses maravilhosos artistas que vem se dedicando à arte de fotografar espetáculos. Graças a eles, podemos guardar para sempre, mesmo que na memória, o prazer e a emoção que vivenciamos durante a cena, e que somente quem esteve presente pode compartilhar.
Convidei alguns dos melhores profissionais que tem desenvolvido um maravilhoso trabalho de documentação e poesia sobre as companhias e os artistas de Curitiba. A cada um foi dado o direito de depor sobre o que bem entendessem da relação da fotografia com o teatro. São
excelentes artistas, amigos queridos, que pretendo tê-los por aqui para sempre.


Alessandra Haro
"A fotografia de espetáculos é um trabalho documental. Carrega um sentido utilitário que se sobrepõe a criação do fotógrafo. Mesmo assim, é preciso atentar para o significado das palavras: sobrepor não significa excluir. O fotógrafo que se lança nessa tarefa deve ter em mente que o objetivo principal é documentar, sendo assim, está condicionado a uma série de exigências e restrições que limitam mas não privam da criação.
Luz, tonalidade de cenário e figurino, movimentação cênica... diversas podem ser as adversidades que impedem a liberdade completa de escolhas fotográficas. O fotógrafo precisa se adequar. Para mim, a decisão do clique é o ponto de maior liberdade.
A compreensão e o grau de envolvimento com o que está diante da lente é o que determina a escolha do instante certo para clicar. Compreender o conceito e o clima do espetáculo é de fundamental importância. Do ponto de vista do fotógrafo, as cenas do espetáculo estão em constante mudança plástica. Tudo se organiza, se desorganiza e se reorganiza, de forma diferente e cíclica.
Bresson chamou de instante decisivo o momento exato em que todos os elementos se alinham perfeitamente para dar significado fotográfico à situação. A exata fração de segundo, o ápice do movimento corporal do ator, a intenção que não está explícita, são alguns dos elementos que fazem diferença e tornam esse tipo de fotografia autoral. Outros aspectos, a serem considerados, são a escolha e a composição do quadro. A escolha do enquadramento e da composição da imagem acontece de acordo com as referências e subjetividades de cada um. Como trabalho com fotografia e cinema há 13 anos, a influência da estética audiovisual em minhas fotos é clara: procuro mostrar a dinâmica de movimento da peça. Meu objetivo não é registrar cenas paradas, o movimento de todos os elementos cênicos é importante. O auge do movimento do ator é o instante que busco. Assim, consigo registrar o movimento por meio de uma representação estática."




(Jesus vem de Hannouver, espetáculo da Companhia Silênciosa - Foto de Ale Haro)


Chico Nogueira


"DIÁRIO DE BORDO - Fotografo teatro - quase que exclusivamente - há 31 anos! Fiz curso de fotografia em 1974, lá no SENAC, mas, na verdade, só consegui comprar uma câmera em 78.
Bem, nunca tive dúvida que iria me dedicar à fotografia de espetáculo paralelamente à carreira de ator. Sempre apreciei o trabalho de Jack Pires, o cara que fez a maioria
daquelas fotos que estão expostas lá no Teatro Paiol, e de Orlando Kissner, na época trabalhando no jornal O Estado do Paraná e que se tornou um grande amigo e mentor.
Pois foi Orlando, profissional de primeira, que me sanou muitas dúvidas técnicas e que chamei para me acompanhar à loja quando consegui juntar uma graninha para a primeira câmera.
Nessa época, também, manjava um pouco de laboratório de PB, pois meu irmão mais velho, entusiasta da fotografia, já tinha me ensinado alguma coisa sobre o assunto.
Pois bem, naquele longínquo 1978, eu começava a ensaiar um espetáculo chamado URUBU, texto do Manoel Carlos Karam e com um elenco supimpa.
Foi aí mesmo, então, que comecei a dar os primeiros cliques. Muitos filmes depois, muitos espetáculos depois, eis que, um dia, sem mais nem menos, Dedé Urban, que trabalhava no MIS,
viajou com nosso grupo teatral a Jacarezinho (se não estou enganado!) e viu algumas imagens que eu carregava pra cima e pra baixo. Perguntou-me, assim, de chofre, se eu nunca tinha pensado
em expor o meu trabalho... Isso foi em 1986. Muitas exposições se seguiram a essa do Museu da Imagem e do Som (Livrarias Curitiba, Casa Romário Martins, Solar do Barão, Goethe-Institut, etc.),
além de participações em alguns livros de memórias teatrais (AdemarGuerra, Paulo Autran, Sutil Cia de Teatro).
Embora muita gente me cobre um livro só meu e coisa e tal, acho que já não tenho muito saco pra isso. Prefiro que minhas fotos estejam rolando pela internet (orkut e facebook).
Não sei se dá pra entender isso, mas é uma espécie de agrado que faço a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, acabaram fazendo parte da minha carreira e, por extensão, da minha vida!!! Evoé!!!!!!"



(A vida de Galileu - Espetáculo de Paulo Autran - Foto de Chico Nogueira)




Elenize Dezgeniski

"A câmera fotográfica é uma máquina de congelar instantes, às vezes instantes com movimentos. Enquanto miro pelo visor sinto também o meu coração bater no ritmo do movimento do artista, no meu ritmo, atenta sempre às coisas do mundo “real” do qual fazem parte os bastidores; o som, a luz e as disciplinas.
Mas não posso acreditar que uma fotografia seja somente congelamento, ela é muito mais que isso, é “Start” para novas possibilidades da arte que a ela se apresenta.
Sinto meu coração bater enquanto aguardo o momento que estou buscando. Prendo minha respiração, apoio bem os cotovelos nos braços da poltrona e disparo, e às vezes o disparo volta “brilhando” no visor da câmera. Faço com carinho, com inspiração. Acho que o estudo mais aprofundado da fotografia no âmbito da arte tem influenciado o meu trabalho, não posso esquecer de citar aqui a querida Milla Jung que me deu aulas incríveis no ano passado e Luana Navarro, que sem palavras, problematiza o meu trabalho sempre que parece haver nenhum e pessoas assim são fundamentais em nossas vidas. Também sou atriz e faço parte da Obragem teatro e Cia., lugar onde costumamos refletir bastante sobre o teatro no hoje. Minha primeira formação artística foi na música, minha segunda e paralela na fotografia, sou filha de fotógrafo e meu pai também me ensinou muitas coisas.
Hoje vivo e trabalho neste lugar do “dar a ver” essa coisa a qual às vezes chamamos de arte."

(Espetáculo Um dia fora do Tempo da Cia G2 de Dança - foto de Elenize Dezgeniski)



Marco Novack


Eu entro no espetáculo como seu fizesse parte dele , me imagino ali e tento expressar minha emoção na imagem.
Eu gosto da expressão, do close-up, do bastidor e do movimento. Eu gosto de pessoas na minha lente.




(Melan&Colia, espetáculo da Emcompanhiade2 - foto de Marco Novack)



Rosano Mauro

"Sempre fico na expectativa antes de fotografar um espetáculo, pois é um conjunto de fatores (luz.espaço.ator.cenário.figurino) pelo qual o olhar do fotógrafo está submetido... e que vai influenciar nas escolhas de composições.enquadramentos. enfim, o meu olhar sobre aquele espetáculo.
É... é um trabalho que não depende só do fotógrafo e de sua criatividade. Procuro sempre saber o mínimo sobre cada espetáculo, se possível assistir a uma apresentação antes de ir fotografar.... pra usar uma linguagem que ajude o clima criado pelo espetáculo.. que passa a usar o suporte da fotografia que dispõe de outras ferramentas para mostrar uma imagem e.. por isso não me preocupo muito em querer contar a história.
Acredito nessa intervenção ao documentar as atitudes e linguagem das produções, e cada fotógrafo tem uma forma de recortar o espetáculo, de sentir as vibrações da cena.
Presto muita atenção nos detalhes e quando é uma montagem muito ágil, tenho que ser sagaz pra conseguir o click que contraia expressão do ator, composição do quadro, tempo de exposição e abertura correta para a iluminação ditada na cena(ufa!). Cada espetáculo tem um viés que me leva a pensar e enquadrar de uma forma, o conteúdo estético da cena é de extrema importância, suas cores e elementos (me delicio com muitos objetos e muita mise-en-scène) enaltecem o meu quadro.
Outro fator que colabora para o resultado final é o trabalho de “pós” com as imagens, “cropo” umas fotos, corrijo temperatura de cor, também uns ajustes de pele... para conseguir o melhor resultado visual de acordo com cada espetáculo. A fotografia digital dinamiza o uso dessas ferramentas.
Consigo encontrar semelhanças de linguagem estética e conceitual nos meus trabalhos, descobertas pelas possibilidades que cada produção oferece."


(Espetáculo Instantâneos de Tempo em Tempo da Cia provisória - foto de Rosano Mauro)

9 comentários:

Cláudio Bettega disse...

vejo a fotografia
poesia estática
fina pintura
do real
informação precisa
delicada
retrato intenso
e total

cláudio bettega



tudo lindo por aqui. vou linkar no meu blog. parabéns!!!

Figurino e Cena disse...

Cláudio querido, obrigado pela participação e carinho.
Volte sempre!
Abração.

ALAMEDA Cia Teatral disse...

Oi, Paulo! Parabéns pelo blog, tá muito bom!

Gosto da sua escrita e espero que este seu espaço se inscreva no mundo virtual como uma boa referência de discussão e crítica!

Legal você trazer artistas como os que figuram no blog!

Também quero agradecer a deferência sobre o meu trabalho. Apesar de [quase] não nos conhecermos, você teve uma leitura singular de "Fotomaton"!

(Nos créditos do Marco Novack, em "Melan & Colia", está errado o nome do grupo... Só pra corrigir! rs)

Grande e afetuoso abraço,

Cristóvão de Oliveira

Figurino e Cena disse...

Cristóvão, que bom ver você por aqui também! Obrigado pelo retorno e pela correção (ja alterei o nome da companhia).
Sucesso sempre para você em todos os projetos. Venha sempre que puder, ok?
Beijo grande.

Oficina disse...

parabéns pelo post sobre fotografia de palco!
as imagens de artistas que registram artistas são sempre muito tocantes, e como uma metalinguagem reapresentam a beleza que é a humanidade se expressando. te convido a conhecer minhas fotos de palco oficinafotografias.blogspot.com
abraço.

Figurino e Cena disse...

Olá Gabriel, obrigado pela visita e participação.
Parabéns também pelas suas fotografias que são lindas, sucesso! Volte sempre!
Grande abraço.

Pameli disse...

Gosto das fotos do Rubens Cerqueira.. Não sei se você já viu.. Tem aqui o link do flickr dele: http://www.flickr.com/photos/whobeenyou/sets/303341/

Muito legal o blog, continue atualizando!

Pâmela Petrini

Figurino e Cena disse...

Olá Pâmela, obrigado pelo link do Rubens. ainda não conhecia o trabalho dele, é realmente muito bom. ja acrescentei o link aqui no blog.
Obrigado pela visita e participação, venha sempre!
Beijo grande.

Rodolfo Araújo disse...

Seria legal falar sobre os fatores financeiros da fotografia de espetáculo, os custos, tipo: fotografar espetáculo, fotografar um festival de teatro, se cobra pela diária ou pacote... seria legal para quem pensa em seguir a carreira. Abraço.